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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Solidão amiga.

-Pinterest-


É raro alguém dizer que gosta de solidão. Mas o contrário; dizer que gosta de estar só algumas vezes eu já ouvi e compactuo com esta ideia, porque necessito disso na minha vida, é tão essencial quanto estar junto de amigos ou família. Preciso das duas coisas em doses bem divididas, porque já aprendi que a solidão também pode ser amiga.

* * * *

Você conseguiria viver no meio do nada, escondido de tudo e todos?  Sem internet ou eletricidade, a ilha de Elliðaey, no sul da Islândia, proporciona essa experiência a algumas pessoas. O local, que somente é cercado pelas águas do oceano Atlântico, abriga uma casa considerada a mais isolada do mundo.
A área serve de alojamento para caçadores especializados em capturar papagaios-do-mar durante a alta temporada. Há cerca de 300 anos, a ilha chegou a abrigar uma comunidade com cinco famílias, que viviam da criação de gado, da pesca e da caça de aves. Entretanto, o local não favorecia essas culturas e as famílias tiveram que se mudar.
Foi na década de 50 que a Associação de Caça de Elliðaey montou o alojamento, que é utilizado até hoje. A água potável para consumo dos caçadores é recolhida a partir da atmosfera, por um sistema de coleta feito especialmente para o local. Se você se animou para conhecer a ilha, infelizmente só os membros associados têm essa oportunidade. Abaixo, algumas imagens da “casa de Bjork”, como é conhecida na região.
(Via)





Nesta semana em que Rubem Alves despediu-se deste nosso mundo, vários lindos e inspiradores textos têm sido compartilhados na rede social e para ilustrar este tema, fica aqui algumas colocações suas sobre a Solidão que pode ser amiga.


". . . Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim: 


“Por muito tempo achei que a ausência é falta. 
E lastimava, ignorante, a falta. 
Hoje não a lastimo. 
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. 
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, 
que rio e danço e invento exclamações alegres, 
porque a ausência, essa ausência assimilada, 
ninguém a rouba mais de mim.!“ 

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. . . ."



". . . O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão... 


A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira. . . ."

* * * * * * * * * *


12 comentários:

✿ chica disse...

Beth, que lindo lugar nos trazes hoje.Lindo,mas confesso, não gostaria de ali estar sozinha! Gosto de estar sozinha, mas não de sentir solidão! E a foto me passa isso...Agora se pra lá levar família e minha cacarecadas, tudo bem e claro ,uma conexãozinha básica,rs...

E Rubens? Será sempre lembrado...beijos praianos,chica

Ivone disse...

Bom dia linda amiga Beth!
Amei ler aqui, ver essa casa nessa linda Ilha, mas não conseguiria viver num lugar assim sozinha, amo pessoas, mas amo também os meus momentos de solidão, mas solidão escolhida por mim, essa de caminhar a sós olhando tudo a minha volta, percebendo a vida, tirar uns dias para refletir sem nada por perto nem internet, isso até faz bem, principalmente para quem mora em uma capital como São Paulo.
Amei ler tudo sobre a solidão pelo escritor que bem retratou isso,ou melhor, Rubem Alves retratou muito bem todas as situações em que vive o ser humano!
Seu blogue é maravilhoso, sempre quando venho aqui me deleito em ler e absorver o bom aprendizado!
Abraços apertados!

Crista disse...

Gosto da solidão...
Para viver nessa ilha,só precisaria de algumas árvores e meus bichinhos e de vez em quando a visita dos meus seres humanos amados...
Claro que na eperançadeque viessem viver comigo...ksksksksks...
Beijos,querida!!!!

Maria Célia disse...

Oi Beth
O local da casinha isolada é paradisíaco, mas não gostaria de ficar lá nem algumas horas.
Necessito e gosto de ficar só por algum tempo, mas solidão é muito triste.
Uma beleza as passagens citadas por estes autores fabulosos.
Beijo.

Bia Hain disse...

Olá, Beth! Acho interessante a maneira como coloca suas ideias atreladas a curiosidades. Também gosto e preciso de momentos sozinha, o que pode acontecer até se estiver acompanhada. É estar quietinha, em paz, e respeito muito esses momentos para o outro também. Diferente de isolamento, solidão, que magoa e faz sofrer. Um abraço!

Lúcia Soares disse...

Lindas imagens, as da casa solitária. Não gostaria de estar nela, não.
Estar sozinho é bom; ser sozinho é que pesa. Geralmente as pessoas que adoram viver sozinhas têm algum problema emocional, pq fomos feitos para viver em comunidade. Já disseram que "ninguém é uma ilha" e concordo.
Gosto muito de ficar a sós comigo mesma. Mas não quero ser só.
Os textos do Rubem Alves são ótimos, assim como a citação de Drummond.
Beijo, Beth.

Silvana Haddad disse...

Beth:
Eu acho a solidão uma companheira bem agradável.
Alguns podem achar estranho isso, mas, pra mim é reconfortante ter momentos solitários.
Inclusive, também já publiquei um post sobre isso.
Caso tenha curiosidade em ler, deixo aqui o link:
http://meusdevaneiosescritos.blogspot.com.br/2012/08/solidao-versus-abandono.html
Bjs.:
Sil

Léia Silva disse...

Bom dia querida!
Nossa, ontem eu estava analisando a minha vida, justo pelo fato de gostar tanto da solidão e cheguei a conclusão que gosto de estar só por ter passando uma infância com babás e elas nem me davam atenção e eu brincava o tempo todo sozinha! Inclusive no meu perfil do blog escrevi que "Amo o silêncio e estar sozinha..."
Ao mesmo tempo não conseguiria viver no meio do nada!
Também acho que a solidão pode ser amiga!
De desejo um lindo dia!
Bjim
Léia

Cadinho RoCo disse...

Bela publicação e direi até oportuna. A solidão é rejeitada, no mais das vezes, por quem a desconhece partindo daquele princípio de que não comeu e não gostou.
Cadinho RoCo

António Jesus Batalha disse...

Para uma casa de férias até seria bom, mas tinha de ter uma aeronave.Viver isolado deve ser muito triste, precisamos das pessoas nem que seja para testar a nossa paciência.Gosto de solidão por umas horas máximo um dia.Mas o lugar é muito bonito e para a pesca deve ser fantástico.Seu cantinho é também muito bonito. Abraço. Peregrino E Servo

Vanessa Palombo disse...

Oi Beth,

Achei esse lugar incrível, mas passaria um final de semana apenas...

Gosto de momentos únicos comigo mesmo, mas nao conseguiria viver isolada do mundo, gosto do que ele tem a me oferecer...

Adorei tudo por aqui...

Abçs

Anne Lieri disse...

Oi Beth! Ver aquela casinha tão isolada me deu até calafrios...rss..gosto de estar só de vez em quando,mas não sozinha....rss...Um texto profundo e adorei ler! bjs,