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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Da glória ao castigo.

Tumblr.

Perder o sono às vezes não é tão mal assim, principalmente se vemos e ouvimos coisas que fazem vibrar a mais profunda compaixão dentro de nós. Pois foi exatamente isto que eu senti, chegando a me emocionar quando voltei pra cama e fiquei pensando naquela pessoa, na sua história e no que ele levou para toda sua vida, depois do fatídico episódio que aconteceu na primeira Copa do Mundo feita no Brasil, mais precisamente no dia 16 de julho de 1950.



A Seleção Brasileira disputou no Maracanã cinco partidas de seis durante toda a Copa. Na partida final, foi registrado oficialmente o público recorde de 199.854 torcedores presentes.  Nesta decisão, o Brasil foi derrotado de virada por 2 a 1 para o Uruguai.  A derrota em solo nacional ficou marcada na história do povo brasileiro, sendo conhecida popularmente como o "Maracanazzo".(via Wikipédia)

A pressão sobre os jogadores já era grande, e prova disso foi o discurso do prefeito do Rio de Janeiro, General Mendes de Moraes, que declarou antes do inicio do jogo: “Cumpri minha promessa construindo esse estádio. Agora, façam o seu dever ganhando o campeonato”.  É mole!!!

E quem foi o goleiro desta nefasta partida que ficou para sempre na memória viva daquele estádio?

Seu nome era Moacir Barbosa, o goleiro que diante da maior platéia reunida para testemunhar a decisão da Copa de 50, selou para sempre a sua sorte e nunca mais teve paz interior, sempre o perseguiu a sombra dolorida dos dois gols sofridos.

O goleiro Barbosa ficou conhecido como " O homem que fez o Brasil chorar" e tanto naquela época quanto hoje, o brasileiro, movido pela paixão do futebol, fez suscitar uma jornada quase filosófica por temas como nacionalismo, racismo e culpa individual. Sendo que atualmente, os jogadores podem se dar ao luxo de terem ajuda psicológica como foi com esta nossa seleção que tomou de 7 a 1 da Alemanha, deixando o time e sua comissão técnica bastante desestabilizados. 
Porém, naqueles idos dos 50, sem televisão e com aquelas milhares de pessoas presentes ao estádio, únicos que puderam presenciar aquele momento chocante e triste para uma nação, em que não apenas os jogadores ficaram afetados psicologicamente quanto muitas pessoas daquelas que depositaram toda a esperança e a tentativa de afirmação do Brasil através do futebol para o resto do mundo.

O documentário que assisti nesta noite pela ESPN, dizia deste homem e seu sofrimento e do abandono que sofreu após este dia fatídico, tanto pelos seus amigos de profissão quanto pelo povo brasileiro.

É inevitável a comparação com os dias atuais, em que os jogadores, mesmo sofrendo uma derrota como esta em campo, continuam suas vidas de luxo, com seus altos salários, mansões e iates, sem contar o que recebem por fora em prêmios e contratos com marcas internacionais em propagandas.

Naquele tempo, não tinha esta exposição de mídia, este merchandising todo, e muitos daqueles jogadores morreram pobres como o próprio Mané Garrincha, grande craque. Eles recebiam uma ajuda mínima de custo para jogarem e o próprio Barbosa, voltou para casa depois desta partida, de trem, coisa inimaginável para um jogador de seleção brasileira de hoje.
Fatos interessantes foram contados neste documentário e que parecem até lendas, um deles foi que Barbosa usou a madeira da trave do gol do uruguaio Ghiggia sobre ele, para fazer um churrasco para seus amigos do bairro de Ramos em que morou por longos anos. Uma tentativa de queimar a lembrança terrível que o perseguiu sempre.
Em outro, aconteceu três dias depois do final da Copa e Barbosa ia de trem para o interior para um retiro de descanso, quando ouviu um torcedor mais à frente, conversando com outro, dizendo em alto e bom tom que gostaria de surrar o goleiro da seleção.
Então, Barbosa tirou o rosto de trás de um jornal e se apresentou, dizendo: "Por um acaso o senhor está me procurando?" - o valentão simplesmente pulou pela janela do trem em movimento.

Talvez o que mais magoou seu coração foi a história que o jornalista Mário Magalhães contou sobre o que presenciou em 1993, na Granja Comary, quando Barbosa tentou cumprimentar e falar com o goleiro Taffarel e o técnico Parreira não o deixou se aproximar, e o velho goleiro, intimidado e humilhado, não insistiu. Disse, Solange, sua filha adotiva, que este episódio foi o que mais arrancou lágrimas em Barbosa.

Coitado do Barbosa, que cruz pesada carregou por toda sua vida!  Numa entrevista ele afirmou: "A pena máxima no Brasil é de 30 anos, mas eu já paguei mais do que isso!"

Moacir Barbosa, o arqueiro negro de 50, faleceu no dia 7 de abril de 2000, aos 79 anos, em Praia Grande, litoral de São Paulo.

Fiz este post para homenageá-lo e relembrar este fato com tanto significado simbólico e histórico, para comparar os ídolos que vão da glória ao castigo de uma hora pra outra. Repensarmos na dor, sofrimento e alegrias que cada um de nós leva em seu íntimo.

E descobri o livro que fala sobre a vida deste homem que carregou uma culpa até o fim da vida, pois que culpa não havia, já que em futebol se perde ou se ganha, e ponto final.

"Certamente, a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. Era um goleiro magistral. Fazia milagres, desviando de mão trocada bolas envenenadas. O gol de Ghiggia, na final da Copa de 50, caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo. Aquele jogo o Brasil perdeu na véspera."
(Armando Nogueira)








15 comentários:

cristiane de paula goiatá goiatá disse...

Nossa Beth, fiquei emocionada e com pena desse peso tão grande que Moacir Barbosa carregou por tantos anos!Fico imaginando como se sentiu Júlio César com aqueles fatídicos 7x1, aquela noite ele deve ter pensado muito sobre os gols que sofreu na copa de 2010 da Holanda e que o torcedor brasileiro apaixonada o crucificaram por tanto tempo, para ele seria a redenção ganhar essa mas tinha uma lamentável equipe desestruturada, um técnico antiquado, me perdoe Felipão e com outras equipes loucas por aquela taça.
Infelizmente futebol é isso mesmo, para ganhar um tem que perder. Mas pareceu-me até castigo, Parreira enfrentar essa vergonha mundial depois de ter recusado a Moacir Barbosa o simples ato de um cumprimento ao nosso goleiro tetracampeão. Dias vão dias vem!
Mil beijos querida!
E as vezes a insônia faz bem, devemos é conduzí-la a outras esferas!
Uma linda sexta!
Cris

✿ chica disse...

Lindo post,Beth e essa história desse Barbosa é triste e nos emociona. Pena que ele passou por tudo isso, falta de reconhecimento e tantas coisas mais!

E tuas insônias sempre valem! beijos,tudo de bom,chica

pensandoemfamilia disse...

Que história Beth, eu não conhecia. Como é triste a forma como crucificam as pessoas , não é mesmo?
A falta de reconhecimento é um dos sentimentos mais dolorosos.
Bonita esta sua homenagem. vou compartilhar no face. bjs

Maria Célia disse...

Oi Beth
Desconhecia este fato a respeito do goleiro Barbosa, da seleção de 50.
Que cruz carregou por toda a vida, tão diferente dos nossos atletas atuais.
Bacana sua postagem.
Beijo

Silvana Haddad disse...

Beth:
Que história emocionante e triste.
Creio que tanto a derrota, quanto a vitória em um jogo de futebol, é do time todo, e não apenas de um membro.
Atribuir o fracasso a um indivíduo, é uma atitude de falta de respeito e educação.
Por coincidência, hoje também publiquei um texto sobre a Copa.
Passa lá no blog pra conferir, ok.
Bjs.:
Sil

Maria Luiza disse...

Sem palavras! Triste demais!

ONG ALERTA disse...

Como toda bela história as vezes simplesmente passa...
Beijo Lisette.

Cadinho RoCo disse...

Belíssima homenagem, mais que oportuna, parabéns por suas colocações.
Cadinho RoCo

Luma Rosa disse...

A História se repete! Tirando as diferenças e dificuldades do passado, acho que o sentimento é o mesmo e as pessoas na atualidade apenas se distraem com outros fatos, para tentar amenizar a dor.
Outra coincidência é que no ano anterior, em 1949 o Brasil venceu o 1º Campeonato Sul-Americano com direito a massacre de todos os seus rivais e talvez por isso a decepção foi maior em 1950. Afinal, os jornais do dia contando com a vitória brasileira distribuiram cartões postais parabenizando a seleção pela vitória. O Uruguai era um timeco ao ponto de Julio Perez fazer xixi nas calças em campo. Lembro que o meu pai contava que o Barbosa havia declarado que no Brasil, a pena máxima por cometer um crime é de 35 anos e ele estava condenado a 50 anos.
Enquanto lia o seu texto, me lembrei de várias histórias de futebol que ouvi, com outros jogadores da época que também passaram por dificuldades financeiras e também de saúde. Penso que a conquista por melhores salários é inerente a qualquer profissão e no caso dos jogadores de futebol, que são logo descartados por causa da idade, um salário maior ajuda a fazer um pé de meia para o futuro; os jogadore tops recebem salários de estrelas, mas se for pegar um jogador de início de carreira, garotos de 16, 17 anos... eles moram em alojamentos de time com direito a dieta específica e ganham apenas um salário como ajuda de custo. Chegar ao topo é tudo o que querem, já que a maioria são de famílias pobres. Neymar foi um desses garotos, diferente de Messi que logo foi para o Barcelona ser "construído" com 13 anos. Imagina como seria o Neymar hoje se tivesse tido a mesma oportunidade?
Estamos tão acostumados com o glamour que certa as estrelas do futebol, que nos esquecemos da ralação que é chegar ao topo. São tantas regras a serem cumpridas que o Barbosa certamente seria descartado por sua excentricidade: Jogar sem luvas como justificativa de que as luvas tiravam a sua sensibilidade de tato. Enfim... Pelo menos o amargor da derrota de agora, podemos relembrar um outro amargor e constatar que heróis e bandidos também morrem!
Beijus,

Anne Lieri disse...

Beth,que coisa mais triste! Não sabia dessa história e fiquei muito sensibilizada com o que sofreu esse goleiro. Uma homenagem mais que merecida num excelente texto! Bjs,

Felisberto Junior disse...

...Olá,Beth
Linda e emocionante homenagem ...apesar de o futebol ser um jogo, ou seja, uma atividade circunscrita a regras, em que se busca a vitória... a derrota, o choque, configuram , como em qualquer momento dramático, que vozes aparentemente inexistentes comecem a vir a público e passem a ser levadas em total consideração...quando penso eu e conforme dito no documentário,o Brasil perdeu na véspera... e assim, o início de uma das maiores injustiças do futebol, que marca o destino de Barbosa, apontado como o maior culpado pela derrota...e tal pecado se paga,pois, quando se fala em 50, ninguém pensa num colapso geral. (…) só se falava em Barbosa,de forma maciça... por uma falha discutível. Agora, não faltam responsáveis por tamanho vexame...sim, Barbosa, da glória para o castigo e do castigo para a glória,onde quer que esteja...
Boa tarde, Obrigado pelo carinho, belos dias,beijos!

Calu B. disse...

É alarmante como o peso dado a uma competição iça ou submerge vidas. A cegueira diante da ânsia de vitória enevoa a razão e dilacera as vidas pessoais e profissionais da área esportiva.Ninguém se lembra que ganhar e perder são alternativas do mesmo jogo.Todos só se contentam com a vitória e isto é mais uma falha enorme da educação cidadã no Brasil.Quantas décadas mais serão precisas para que se consolidem as posturas e as ideologias de uma sociedade bem formada.Quantas?

Bjos, Betinha e boa semana.
Calu

Toninho disse...

Beth neste momento que leio esta belíssima postagem com homenagem a um grande goleiro massacrado pela historia do futebol, leio sobre a compra de uma mansão no Rio pelo Neymar.
Já li muito sobre este episódio de 50 como já vi varias entrevistas com o Barbosa. Numa ele diz de uma voz estranha atrás do gol e sempre lamentava a carga que colocaram sobre suas costas. Este texto é pleno de reflexão que passa pelo racismo, preconceito.
Agora temos o Mineraço na historia e quem será o culpado?
Hoje o futebol é cercado de todos os recursos e profissionais e ainda assim temos atletas fora do eixo, como o caso do Adriano.
Um bom fim de semana amiga.
Hoje lembrei de você ao ler sobre a morte do nosso querido Rubem Alves, uma perda logo após a de João Ubaldo.
Meu carinhoso abraço de muita paz e luz em seus dias.
Beijo.

Teresinha Ferreira disse...

Olá amiga,
Linda homenagem! Como as coisas mudaram, não é mesmo? Imagino que não deve ser fácil levar essa cruz de fracasso para o resto da vida e além disso ser ignorado por tantas pessoas.
Hoje, o momento é outro. Mesmo que haja um fracasso, como foi no jogo 7x1, os jogadores possuem mais recursos para superar esta lástima.
Com toda certeza, o Parreira deve ter lembrado do descaso com o Barbosa.
Interessante que hoje li em uma revista que peguei na farmácia, uma entrevista com o Felipão. Isso antes da copa.
Perguntaram pra ele o seguinte: O Pelé comentou que acreditava que a Alemanha seja um dos países favoritos para vencer a Copa de 2014, mas ele também tem fama de ser "pé-frio". O que você acha desse comentário?
REsposta do Felipão: Se o Pelé falou que a Alemanha é a favorita, eu mantenho mais ainda o que eu falei sobre o Brasil, porque quando Pelé fala, dá errado. Pode ser que o Alemanha nem chegue às finais. Você já tem o histórico, nem precisa me perguntar.
Pois é, assim como aconteceu há alguns anos atrás, a arrogância e o descaso acontecem na atualidade. Tudo bem que é de outra forma, mas...
Beijos mil

Joao Antonio Ventura disse...

Bela crônica sobre o "maracanazo" e a injustiça ao Barbosa. Naquela época parece que a pressão ufanista da "pátria de chuteiras" agiu sobre os brios dos jogadores uruguaios, que reverteram o placar. Agora, no "mineiraço", a pressão agiu sobre os nossos jogadores, inseguros, e a falta do Neymar agravou a situação. Todos partiram para o primeiro gol, que lhes daria a tranquilidade necessária. Mas do outro lado tinha um time estruturado e seguro... Gostei muito do "Mãe Gaia". Abraços.