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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Uma invenção como moradia.


Numa casinha de telhado inclinado com telhas pintadas de grená, na rua chamada Rua do Encanto, sempre teve uma bandeira nacional fincada lá em cima, muito antes do pessoal mostrar seu amor pela Seleção do Brasil em Copas do Mundo.
 A Encantada, é assim que seu proprietário ilustre deu nome a esta casa construída no início do século XX, para morar e exercitar o prazer de contemplar planetas e constelações do céu que o atraiu por toda a vida, e fez criar a mais impressionante de todas as invenções modernas - o avião, na época chamado Dirigível.

Santos Dumont escolheu Petrópolis para morar por ter o clima agradável a que ele sempre esteve habituado em sua vivência na Europa e, também por ser naquela época, uma cidade no interior do Estado do Rio que juntava as comodidades e boas relações da capital federal aos ares de lugarejo pacato, refrescado pelas chuvas frequentes, em meio à exuberância das montanhas cobertas pela Mata Atlântica. E por aqui se reuniam para descanso e jogos de tênis nos fundos da antiga residência de verão de D.Pedro II, uma lista de frequentadores que incluía famílias como as do milionário mecenas Carlos Guinle, do diplomata Joaquim Nabuco e dos empresários Franklin Sampaio Filho, do Banco Construtor do Brasil, responsável pela eletricidade fornecida à Petrópolis, e Octavio da Rocha Miranda, Presidente do clube e deputado federal que tinha entre seus muitos negócios o nascente filão dos ônibus urbanos da capital da República. (fonte aqui).

Santos Dumont ficava sempre hospedado no Palace, hotel de frente para a Praça da Liberdade, lugar onde podia-se acompanhar a passagem de pedestres em lazer e o vai-e-vem de automóveis, bondes e veículos puxados a cavalo.  Olhando para a esquerda avistava-se um bambuzal esparramado num terreno íngreme, à beira de uma ruazinha que serpenteava montanha acima, a Rua do Encanto, no morro do mesmo nome. E foi aí nesta pirambeira guarnecida pelos bambus, tida como impraticável para uma edificação, que Santos Dumont visualizou seu retiro na serra. E esta empreitada tornou-se uma ideia fixa. Foi atrás do dono do terreno, um negociante de jóias de origem alemã, e ofereceu 10 contos de réis pelo imóvel, mas a oferta foi recusada de imediato, porém Dumont apertou o cerco,insistiu, mas manteve a oferta inicial. O comerciante acabou aceitando e então Santos Dumont pode realizar seu sonho de ter uma pequena 'cottage' na serra verde.

Em cinco meses a casa estava assentada pitorescamente sobre o terreno íngreme, mas não era nenhuma moradia parecida com os ricos casarões da época que ainda sobrevivem na cidade. Pelo contrário, era simples e ao mesmo tempo funcional, bem ao jeito do ilustre morador.

Nesta última semana, estive por lá novamente e sempre me encanto ao ver o interior deste chalé que contém inovações para aquela época e também aconchego com praticidade.
Reparem que na base da construção, o inventor fez uma espécie de porão para usar como oficina e laboratório de fotografia, fechado por sólidas paredes de pedra que dão estrutura ao chalé.
As paredes são todas brancas e contrastam com as janelas verdes, o telhado grená e floreiras nas janelas remetem às fachadas européias.
No cômodo principal da casa ele assentou o espaço central da moradia, todo assoalhado e dedicado a vários usos domésticos, como sala de estar, refeições, biblioteca e escritório.
Ele colocou a imaginação a serviço da economia de espaço, então a escada que dá acesso à entrada da casa, tem os degraus recortados em forma de raquete, terminando num tablado suspenso à frente da porta, com corrimãos de madeira. Como era supersticioso, destinou o primeiro degrau ao pé direito e o mesmo fez com a escada que ligava o primeiro piso ao mezanino. Lá em cima tem o seu quarto de dormir, um banheiro pequeno anexado e uma porta que dá pros fundos do terreno, onde um passadiço fica sobre o vão entre a edificação e o barranco. Por fora da casa, uma pontezinha conduz a um posto de observação astronômica instalado num nicho aberto no telhado. 

 A escada começando com o pé direito para trazer sorte.
 No mezanino, Santos Dumont projetou uma cômoda baixa em formato de L, fixada num vértice da parede junto à janela com vista para o Palace Hotel. Pequeno e esguio, (tinha menos de 1,60 metro e não mais de 50 quilos) dormia num colchão arrumado todas as noites sobre o móvel. Durante o dia, cama desfeita, o colchão era guardado de pé atrás da porta e com muitas gavetas, a cômoda servia também de apoio para o uso do telefone, um modelo de parede, americano da Western Electric.  Ele era um dos poucos moradores de Petrópolis que tinham uma linha telefônica, coisa muito avançada em matéria de comunicações na entrada dos anos 1920. 
Uma lareira no canto e poucos móveis. Na sala, à direita da entrada, ele encaixou no vértice das paredes uma mesa triangular de madeira, para ler e escrever, otimizando o aproveitamento do espaço sem deixar quinas pelo caminho. Debaixo da janela afixou na parede uma mesa de refeições, retangular e estreita para manter livre o centro do cômodo.
Ele não cozinhava no local, mandava vir suas refeições de restaurantes ali perto.
Outra grande comodidade da Encantada era o chuveiro a álcool, novidade num tempo em que a água para banho era aquecida à lenha. O equipamento consistia de um balde perfurado no fundo e dividido ao meio.
Enquanto um dos compartimentos guardava a água fria, o outro recebia a água quente, que passava por um aquecedor a álcool preso à parede e abastecido por um pequeno reservatório do combustível. Por meio de duas alavancas, o morador controlava a vazão de cada parte do balde e dosava a temperatura do banho.


Trouxe para o conhecimento dos amigos esta casa interessante que foi inventada e construída na encruzilhada estética da tradição e da inovação, do passado e do futuro, já que por fora relembra os incontáveis chalés levantados na Europa e em outras partes do mundo, mas por dentro, antecipou-se ao modernismo arquitetônico, indo muito além das concepções de moradias daquela época.
Afinal, a Encantada foi o refúgio para repouso do grande inventor de nossa era moderna, mesmo quando flanava pelo mundo afora em viagens longínquas, mais dia menos dia, voltava ao aconchego da sua querida Encantada.





Hoje esta casa é um pequeno museu aberto à visitação, perpetuando a memória do grande inventor. Fica ao lado da Universidade Católica de Petrópolis e do relógio das flores.
Todas as imagens - Google.







23 comentários:

Bia Jubiart disse...

Beth, grata por me proporcionar um passeio encantador!
Já havia visto esta casa numa revista faz tempo... E não tinha essa riqueza de detalhes.

Tenha uma ótima noite!

Bjooooooooo

Marli Soares Borges disse...

Oi Beth!
Que lindo post! Lindo texto e lindas imagens. Já conhecia essa casa e a história, há alguns anos, saíram algumas reportagens a respeito e tive oportunidade de tomar conhecimento, mas nem lembrava mais. Gostei de relembrar. Obrigada por isso. (Quando vi a foto lá no FB, pensei que se tratasse daquelas casas construídas em containers, que vi dia desses na TV e que fiquei namorando... ah se eu fosse jovem! rsrsrs)
Bjs
Marli
Blog da Marli



Lúcia Soares disse...

A casa é um encanto mesmo. Também já a conhecia, mas não sabia de tantos detalhes. Muito linda e moderníssima para a época.
Por fora, tipicamente europeia.
Beijo, Beth.

Francisco Domingues disse...

Já estive em Petrópolis, quando visitei o Rio, mas não conheci essa lindeza. Agora, com tal perfeita descrição, foi como se a tivesse visitado, aqui sentado no meu banco de computador... Obrigado!
PS: Gostaria de convidar os seus seguidores a, de vez em quando, visitarem o meu blog "Em nome da Ciência", onde se discutem "coisas do outro mundo"...
Bjs.
Francisco

✿ chica disse...

Beth, essa casinha pé encantada mesmo., E viajei no tempo, estando nela, há ....trocentos anos atrás. Lindo rever, lindo, muito lindo lembrar! Voeeeeei...beijos,tudo de bom,chica

Elisa T. Campos disse...

Que lindeza Beth.
Você mostra lugares que nem parece aqui do Brasil.
Nem sabia desse gosto requintado de Santos Dumont.
Petrópolis e o todo o Rio gostaria de conhecer.

Adorei.
Bjs.

ML disse...

Acho que a última vez que eu visitei a "Encantada" eu tinha... abafa :)

Deu saudades, quero voltar lá!

bjsssss

Cristina Pavani disse...

Que texto completo, Alfazema! Petrópolis deve ser lindíssima...
O detalhe da escada, a inovação do chuveiro, o romantismo do bambuzal, a perfeição do verde e branco.
Nunca tive tanta vontade de estar lá como agora, sentido a atmosfera de época, cruzando com turistas, imaginando cenas.

"Gardicida" pela belezura! Bjs.


Ah, quanto ao vidro, a franquia é separada do carro e compensa muito!

pensandoemfamilia disse...

Realmente é um encanto de casa, já estive em visita. Sua forma de trazer a história trouxe-nos um maior encanto.
bjs,

Cantinho da Selminha disse...

Adorei passear com você, você explica tudo direitinho, adorooo, beijinhos flor lindaaa!

Lilasesazuis Gata disse...

Beth,

Quem mandou você comentar no blog da Léia?

Vim até aqui e estou encantada com seu cantinho.

Você tem bom gosto...amo a cor lilás e suas nuances...e suas postagens abordam temas e assuntos edificantes.

Gostaria muito de um dia conhecer a casa desse gênio autodidata. Adorei suas fotos.

Acho que ele foi um visionário, com suas invenções. Um orgulho para nós brasileiros.

Beth, se você é minha fã nº 1, então eu também vou ser sua fã nº 1...:) :) :)

Querida, tenha um dia iluminado, repleto de bons momentos!

beijinhos,

Lígia e =^.^=

Célia Rangel disse...

Excelente difusão cultural o seu post! Obrigada, por trazer até nós.
Abraços.

Lení disse...

Olá! Tive o privilégio de conhecer essa encantadora e genial casa. Parabéns pela postagem. Petrópolis é uma cidade cheia de cultura e história. Abraços

Anne Lieri disse...

Beth,uma casa encantada mesmo!Que legal esse texto,não conhecia a casa de Santos Dumond e adorei! Muito criativa e dá pra entender porque esse homem era tão especial! bjs,

Marly disse...

Olá, Beth,

Achei esta casa muito interessante! Eu sempre me encanto com casas exclusivas e/ou pitorescas e esta é ambas as coisas e ainda pertenceu ao genial Santos Dumont. Descobri muito sobre ela através do seu post, obrigada!

Um beijo e boa tarde!

Ivone disse...

Linda Beth, linda essa casa, encantada e muito mais depois de ler a sua narrativa muito bem feita!
Não a conhecia, já fui ao Rio, mas não à Petrópolis, sempre amo conhecer tudo sobre cultura!
Obrigada por compartilhar!
Beijos e abraços apertados!

Calu B. disse...

Betinha,
tua detalhada apresentação do local rivaliza com qualquer guia profissional.A Encantada faz mesmo jus ao nome e ainda acrescenta pitadas de espantosas surpresas ao descobrir-se as genialidades criadas por seu proprietário.Um espaço suspenso entre épocas!
Lindas imagens num texto adorável.
Bjkas,
Calu

Regina Rozenbaum disse...

Fiquei en-can-ta-da com a Encantada e sua narrativa. Você é uma guia turística de primeira Bethita. Preciso voltar aí em Petropólis...tantas coisas para rever e outras tantas para conhecer!
Beijuuss

Léia Silva disse...

Querida Beth
Sempre admirei Santos Dumont e já li um livre sobre a vida dele.
Adoraria conhecer o seu incrível retiro!
Ele foi um homem brilhante.
Amei o post.
Bjo grande
Léia

Nina Sena disse...

ai Beth, que coisa mais linda, gente! to encantada!

Rosane Castilhos disse...

OI AMIGA QUERIDA!
ESTAVA COM PROBLEMA NO MEU BLOG, QUANDO MUDEI DE NOME MUDEI TAMBÉM A URL, DAÍ FOI UMA BAGUNÇA SÓ, TIVE QUE REFAZER ELE TODO, PERDI TODA A FORMATAÇÃO ANTERIOR, ETC, ETC E ETC. DEMOREI PARA REFAZÊ-LO, MAS CONSEGUI, ESTOU DE VOLTA, MAS INFELIZMENTE PERDI TODOS OS MEUS SEGUIDORES, POR ISSO NINGUÉM RECEBE MINHAS ATUALIZAÇÕES. VIM TE VER E MATAR A SAUDADE E ME DEPARO COM UM POST MARAVILHOSO E COM IMAGENS QUE ME FIZERAM PASSEAR E DESEJAR ESRTAR EM CADA UMA DELAS. OBRIGADA BEIJO ENORME!

Teresinha Ferreira disse...

Olá Beth,
Já estive visitando essa casinha tão lindinha e encantadora.
Pode-se dizer que ela é encantada mesmo. Com suas peculiaridades ela tem um valor especial.
Fico feliz com a invenção do gênio, apenas não sei o que fazer para usufruir mais e mais dela (rsrs).
Belíssimo post!
Beijos mil

Luma Rosa disse...

Oi, Beth!
É uma casa curiosa! A casa do Museu de Cabangu onde Santos Dumont nasceu também não se parece com nada da época. O pai dele também era um visionário; um engenheiro formado em Paris, era o Rei do Café do Brasil e sua fazenda em Ribeirão Preto era a maior e mais produtiva da América Latina. Seus avós por parte de pai eram franceses, o avô era ourives e descobriram o Brasil através das pedras preciosas.
A "Encantada" surgiu de uma aposta de que seria capaz de erguer uma construção naquele morro. SD projetou e Eduardo Pederneiras construiu. Ganhou a aposta e ainda levou para casa uma caixa de uísque. \o/
Sou apaixonada pela vida de SD e acho que já até fiz um post sobre ele - não lembro - Tenho um primo que foi morar em Barbacena somente para pesquisar sua vida e logo sairá alguma coisa :)
Ele era um dandy sedutor, um requintado trendsetter. Um homem do mundo para quem o impossível era uma questão de perseverar. Dizia: “Se uma galinha voa o homem também pode voar.”
Se tem curiosidade sobre a sua vida e as controvérsias sobre se era mesmo o pai da aviação - reconhecido oficialmente somente em 1997 por Bill Clinton - recomendo a leitura de “Asas da Loucura” de Paul Hoffman.
Desculpe o comentário imenso. Me empolguei! :D
Beijus,