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quarta-feira, 2 de junho de 2010

A Gracinha de todas as semanas




Ela chega cedo, um pouco antes das 7 da matina, sempre esbaforida. Assim que abro a porta e dou meu habitual bom dia, ela responde e entra como um furacão cozinha a dentro.  Vai direto para a varanda dos fundos, abrindo a porta que dá para a cozinha e olha pro céu reclamando do tempo que tá ruim e chuvoso. Gosta de armar a tábua de passar roupa ali na varanda e despreza a bonitinha e bem arrumada que fiz na área de serviço.
Conta que sentiu um frio arretado esta noite e que já estava ficando gripada, mas sua roupa não condiz com o tal
frio que diz estar sentindo.  Alcinhas de um tubinho preto agarrado e curto sobre uma bermuda preta acima dos joelhos e sandálias pretas também, que dei-lhe faz tempo e que adora, está sempre com ela faça verão, outono ou inverno.  Diz que nunca calçou uma bota e nem saberia usá-la, mas fico pensando como ela ficaria engraçada de botas cano longo, sendo tão baixinha e redonda.
Eu já tentei oferecer -lhe um par de botas para dias frios, mas ela recusou-as, dizendo que não conseguiria usar aquilo.  Nem insisti muito, porque este pseudo inverno carioca, principalmente para os que moram na baixada, lugar sempre aquecido, não tem nada a ver com botas e cachecóis. Um simples casaquinho de moletom leve já funciona muito bem nos dias mais friozinhos. E tirei um de meu guarda roupas e dei-lhe de presente antes de ir embora no final da tarde.

A esta hora da matina meus neurônios "Tico e Teco" ainda imploram pela cama e o escurinho do quarto, volto então para a cama por mais 40 minutinhos, mas não fico à vontade sabendo que tem alguém na casa cuidando para mim e eu lá enroladinha debaixo das cobertas.  

Ela sempre começa pela roupa, passa bem e com uma rapidez de dar inveja a quem não tem habilidades com um ferro de passar roupas.   O que não é o meu caso, pois sei passar muito bem roupas, aprendi com uma amiga de infância que quando viu certa vez o meu modo de passar uma camisa, riu da minha cara e pegou a mesma de minhas mãos, ensinando-me o passo a passo correto para deixar uma camisa bem passada e sem ruguinhas.  Treinei com ela e aprendi tudinho, sei fazer direitinho, mas vou te contar ... ô coisa chata ficar ali, em pé, passando uma, duas, três camisas e se for de homem ainda por cima, não é mole!

Aqui em casa a roupa basicamente é pouca para passar e as camisas sociais do maridex é que são em maior número, mas nunca passam de cinco na média, o restante compreende minhas roupas e algumas de cama e mesa, tudo coisa simples, sem engomação e frescurites.  Ela leva em média, umas duas horas e meia para passá-las e depois eu as penduro e guardo nos lugares certos.  E ela ainda faz o café da manhã e toma-o  sentada,  comendo  um ou dois pães franceses que sempre compro na véspera para não deixá-la sem esta primeira refeição.  Depois o cigarrinho básico, lá na varanda, porque já disse que dentro de casa não dá, ninguém fuma por aqui.

A limpeza do apartamento acontece de maneira gradual e sempre repetida todas as semanas.  Ela já tem intimidade com os recantos, já sabe onde precisa de mais um cuidado que não foi dado na semana anterior e eu estou sempre em casa nos dias em que ela vem, principalmente porque sou a 'arrumadeira';  depois que ela aspira, espana, limpa o piso com álcool e desinfeta, meu serviço entra em ação, ou seja, tudo vai pros lugares e assim pouquíssimos objetos foram quebrados até hoje nestes quase 4 anos em que ela trabalha para mim.

Entre uma limpadinha e outra, conta os casos de família, problemas com a filha que teve bebê prematuramente e que eu já contei aqui, e da inabilidade ou falta de amor que a menina tem para cuidar do filho, sacudindo-o quando chora, totalmente sem paciência.  As idas noturnas para bares da comunidade carente em que mora e com um bebê de poucos meses nos braços, passando quase a noite inteira.
Eu converso, oriento, dei-lhe mais um aumento inclusive na semana passada, dou algumas coisas pra ela e pro bebê, mas tenho receio de me envolver mais do que isso.

Ela é a Gracinha, minha faxineira, pessoa simples, sofrida como tantas outras que vemos por aí nas manhãs em pontos de ônibus ou vans das grandes cidades.  Sua sabedoria está no esforço e caráter digno para manter seu trabalho sem precisar pedir esmolas ou bolsas disso e daquilo,  e eu, por outro lado, preciso de sua mão de obra e ajudo-a a manter sua família com o emprego justo que lhe ofereço.  Emprego este que ela diz manter com muita satisfação, pois pelo menos recebe em mãos, totalmente líquido, sem descontos, coisa que não aconteceria se trabalhasse em algum comércio por aí, fora os presentes que volta e meia lhe dou.  É uma mão que lava a outra.
Ela diz gostar muito de mim e fala isso para sua família.  Fico feliz em saber disso, pois nossa relação é também de muita troca de experiências e algumas risadas em certos momentos do dia.

E lá se vai  a Gracinha com um casaco de moletom, um mimo simples, dado de coração e que amenizará o friozinho que a espera no ponto de ônibus desta tarde,  depois de mais um dia de trabalho honesto em sua difícil vida.









24 comentários:

Silvia Masc disse...

Beth, uma graça, a maneira que você descreveu a Gracinha.
beijinho

Néia disse...

Essa é a Gracinha que faz falta na vida de todo mundo! e você, com certeza a patroa que toda Gracinha gostaria de ter, justa e bondosa. Parabéns!

Lucia Cintra disse...

Eu precisava de uma ajuda dessas aqui em casa... Agora, passar roupa... nem sei o que eh isso e nem onde foi parar o nosso ferro.

O truque eh tirar tudo da secadora assim que seca e ja dobrar e pendurar na mesma hora - assim nunca preciso passar nada. Fora que procuro comprar roupas de material especial que nao amassam, pois eu nuquinha passaria roupa (ja tentei e nao da certo).

bjos

Cadinho RoCo disse...

É sempre bom e importante termos bom convívio com quem nos presta serviço.
Cadinho RoCo

Teresinha Ferreira disse...

Olá Beth,
Pena que a GRACINHA aqui de casa, não foi tão GRACINHA assim.rs...
Ela estava pegando as minhas coisas, colocando em um sacola e deixando na escada. Perto da lixeira. Um belo dia desconfiei e pedi a Pri para ir até a escada e ver o que tinha dentro da bolsa...ADVINHA??? A bolsa estava repleta de coisinhas das meninas. Cara, fique p. da vida...Tratava com tanta delicadeza a MINHA GRACINHA...
Estou tão decepcionada e sempre desconfiada...
Triste, não é???

Bjs mil

Beth/Lilás disse...

Cruz credo, Teresinha, ninguém merece uma gracinha dessas!
Pior é quando a gente trata bem, se importa com a pessoa e recebe esta facada. Não é mole!
Espero que consigas em breve uma Gracinha pra você aí.
beijins

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Lu Olhosde Mar disse...

Ahh a sua Gracinha é um mulherão, Beth! bjao!

Glorinha L de Lion disse...

Eu já nem falo mais nada, não tenho mais gracinha nenhuma há mais de 3 meses...e a última delas, fazia igual a da Teresinha, ia carregando minhas coisa, até livros, a danada roubou(pelo menos tinha bom gosto, gostava de ler)...que vc conserve a sua, e não elogia muito não...meu marido é quem diz: é tudo peão, Gloria, tudo filho da p...quando vc menos espera, te dá um pé na bunda...espero que a sua gracinha continue uma gracinha! Bjs.

Beth/Lilás disse...

Glorinha, você anda uma 'gracinha' de calejada com esse tipo de gente! rsss
Pois eu sei que de uma hora pra outra essa gente muda tudo, eu sei...
bjs

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Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

gostei muito da maneira humana que vc descreveu a Gracinha. sempre a gente lê posts que reclamam do serviço mal feito, muitos nem mencionam qualquer traço humano (a não ser os ruins) nas diaristas.

Em casa tivemos diaristas péssimas. E outras que pegamos mto carinho e temos contato ate hj (melhoraram de vida e hj trabalham em outras áreas).

Vai fundo no seu coração, o que ele manda fazer. E, caso um dia a Gracinha erre, pelo menos o erro cometido (e a parte feia da história) não será seu.

bjs bom feriado

Beth/Lilás disse...

Alexandre,
É isso aí, um olhar humano sobre ela e sobre o mundo dela que entrelaça-se com o meu (sem carolice religosa), mesmo que por algumas horas de um dia da semana. Não é perfeitinha não! Deixa muito a desejar na limpeza, não enxerga direito onde tem o pó e eu vivo mostrando, mas no geral, ainda é uma das melhores que já tive.
Não tem como tapar os olhos diante do que vemos nas diferenças sociais a que estamos mergulhados neste nosso país.
Agora, se um dia ela ratear, errar e cair 'em tentação' como as que foram citadas pelas amigas acima, o ônus maior será dela, pois sempre quem perde mais são estas pessoas.
um abração

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James Pizarro disse...

Um comentário com a deliciosa arte dos melhores cronistas que já conheci...um andamento narrativo que em muito lembrou o saudoso Rubem Braga, o príncipe dos cronistas brasileiros.
Meus parabéns !

Beijo

James Pizarro

Lúcia Soares disse...

Beth, conheço bem a Gracinha, das vezes que a mencionou em posts. Esta semana me peguei pensando na filha dela, como andam ela e o bebê, acredita?
Uma tristeza essas meninas novinhas que têm filhos. Saem de casa á noite com eles, às vezes nem abrigados como deveriam estar.
Pobre Gracinha, sua cruz é grande!
Também tenho um bom relacionamento com a minha, que nem é Gracinha, mas ela vive me dando bolos, é raro o mês que não falta, e olha que só trabalha 3 dias na semana. Sempre com papo de doença, mas nunca com atestado...E eu não desconto o dia...Aí a coisa vira uma bola de neve.
Agora, honesta ela é e isto é o que mais vale pra mim.
Bj

Françoise disse...

ehhhh, eu queria mesmo é uma gracinha e uma Bethinha aqui bem pertinho de mim agora. Diz pra ela que nem precisa passar roupa, só me fazer companhia pra boas gargalhadas...

A gente acaba se envolvendo com elas não é? Eu também sempre fui assim....

Beijos

Isadora disse...

Beth que bacana o seu texto sobre a Gracinha. Acho que o mais bacana nessa relação é que ambas dependem, no bom sentido e isso faz com que não seja uma relação desequilibrada.
Dou muito valor a minha Rosângela, pois ela é uma faz tudo e já que trabalho o dia todo é ela quem mantem a ordem aqui em casa.
Um beijo

Laura disse...

Ah Beth, como eu gostaria de ter habilidade pra passar bem as camisas daqui de casa viu.... passo, mas no grito. E sobre a Gracinha, é bom saber q vc a trata com respeito, ja li cada coisa por ai. Gente que trata as ajudantes como coisas e ainda por cima falam super mal depois.

Beijosss
Ah, na ultima hora não consegui passagem do galeao pra sp, ai foi preciso ir pra perto do santos dumont, pensei em te deixar recado, mas como no dia em q ficaria la era um feriado, nao quis te incomodar. Mas com certeza teremos opotunidade de nos conhecermos!!!

Mais beijoss

ML disse...

Bonita a sua relação com esta prestadora de serviços, Beth!
Não são exatamente "amigas" porque os universos são diferentes.
Mas são amigas, sim, porque sabem que contam uma com a outra.

Bacana mesmo.

bjnhs e um ótimo feriadão!

Ivana disse...

Beth, eu tenho uma LINDINHA. É isso mesmo! O nome dela é Lindanir, mas a chamamos de Lindinha. Trabalha no hotel comigo há 6 anos e vem uma vez por semana aqui em casa. Graças a Deus ela não mexe em nada. Entrego a casa nas mãos dela e vou embora trabalhar. Quando ela sai, deixa a chave na caixinha do correio do apartamento. Faço de tudo pra ajudá-la - até as duas filhas dela trabalham comigo no hotel - porque tenho consciência de que pessas como a sua Gracinha e a minha Lindinha, são agulhas no palheiro.
Beijos!

Bordados e Retalhos disse...

Amiga que bom que tem alguém assim, de sua confiança, que te ajuda e que te permite contar essa história pra gente. Depois de ler tudinho a mensagem que fica é a de que ainda dá pra acreditar no ser humano. Bjs

Rosamaria disse...

Beth, tu falaste da Gracinha de uma maneira carinhosa como quando gostamos muito de uma pessoa. Dá graças a Deus pela Gracinha que tens.
A minha Luciana, que também é de toda a confiança, está saindo. O último dia dela será segunda. Ela é deficiente auditiva, usa aparelho, fez um concurso há algum tempo(mora numa cidadezinha aqui perto)e deram o lugar dela para outro. Ela recorreu à justiça e ganhou a causa, vai se apresentar dia 8.
Vou ficar na rua da amargura, mas feliz por ela, que num cargo público vai ganhar mais e ficar junto com o filho e os pais.
Mas tenho outras histórias, que dariam muitos posts, como a que trabalhou comigo quase 15 anos, ajudei a criar duas filhas e até um terreno dei pra ela e saiu pq roubou.
Bjim

Beth/Lilás disse...

Nossa, minha gente, quanta história de 'Gracinhas" e pior quando acabam com final infeliz!
Quem tem uma boa e honesta 'gracinha' que a segure firme, não deixe de pagar em dia e ajudá-la, mas quem já teve experiências de roubo, sinceramente, acho que acabamficando desconfiadas ao extremo e aí quem paga é a próxima que começa em sua casa.
Por isso é sempre importante pegar o endereço, numero da carteira de identidade, telefone celular e caseiro ou alguma referência.
Digo isso para quem tem diaristas e não aquelas que trabalham o dia todo.
beijos em todos

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Astrid Annabelle disse...

Olá Beth!
Ontem li sobre a sua Gracinha! Não consegui deixar um comentário por estar com a net lenta demais.
Mas gosto de "ouvir" estes depoimentos pois me deixam cada vez mais convencidas que o mundo é muito melhor do que o pintam por aí!!!
Beijo grande
Astrid Annabelle

rocosta disse...

Beth minha mãe foi uma Gracinha por uns 20 anos de uma família poderosa aqui na cidade e parou quando enfim a terceira idade chegou e até hoje não conseguiram substituí-la. E foi com esse emprego que minha mãe criou os 4 filhos e de quebra acudia meu pai que nunca teve lá muito juízo.
Beijos muitos!

Mila Viegas disse...

É tão bom quando a gente encontra uma "Gracinha"... eu ainda não consigo fazer isso. Embora já tenha tido alguém para me ajudar quando morei na Tijuca realmente nunca me senti a vontade com alguem estranho dentro de casa.
Adorei a forma como você contou sobre ela.

beijos