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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Vou de Táxi III - O homenzinho e seu ídolo

























E numa tarde dessas lá volto eu, desta vez com mamãe à tiracolo, em mais uma visita ao dentista.

Entramos num táxi que estava parado à espera de passageiros no ponto mais próximo, para não cansar minha mãe que não aguenta andar longas distâncias, então fui logo me dirigindo para ele.

A tarde estava quente e eu só verifiquei se o carrinho tinha ar condicionado, pois era um Fiat pequeno, mas todo limpinho, assim como seu motorista, um senhorzinho magro, franzino, de bigode branco e ótima aparência.
E foi assim o nosso papo:

Eu- Ui que delícia esse arzinho aqui dentro moço!  Lá fora está tão quente e aqui um paraíso.
Tx- Eu sei, por isso estou com os vidros fechados e o ar ligado aguardando no ponto.
Eu- Então vamos para Icaraí, por favor.
Tx- Sim senhora, é pra já!

E assim que enfiou a chave na ignição e deu partida, ligou o som. E ... adivinhem!

Mamãe- Ah que música linda!
Eu- É mesmo! Este é o, o, o ...

E nada de lembrar quem era o cantor, mas o taxista, feliz por termos comentado da música que colocou e que pelo visto adorava,  foi logo dizendo e aumentando mais um pouquinho o volume:

Tx- Este aqui é o Rei da Voz! (Cheio de entonação e orgulho)

(E eu nada de lembrar o nome do homem, pra dizer a verdade eu não gosto muito daquele estilo e ademais não era música que eu cantava ou amava nos meus tempos de jovem.)

Mamãe- Esse aí é o Nelson Gonçalves. Elizabeth, você não conhece? Escuta,que voz linda!

E começa a cantarolar baixinho junto com a música.

Eu- Poxa, mãe, até que sua memória está boa hoje viu, lembrou-se até do nome do cantor antes da gente!

(Sim, porque mamãe está assim, lembra de coisas de mais de 50 anos atrás, mas se eu perguntasse a ela o que comemos no almoço, com certeza ela me diria que "não, não lembro" com aquele jeitinho doce de falar e virar os olhos, ao tentar buscar no fundo das gavetas de sua memória o que havia comido.)

Tx- Este  é o maior cantor que este país já teve, uma beleza, a senhora não acha?
Eu- Bem, eu ...  acho, quer dizer ..., já tivemos outros né, muito incríveis também depois dele. Cof, cof! (Ai meus sais!)  Mas ele é bom sim, muito bom!

Foi aí que eu reparei bem no interior do carro do homenzinho. Quantos badulaques pendurados! Uma Nossa Senhora Aparecida pequenina e colada no painel, um bichinho de pelúcia sentado e também colado ali, um porta-retratos de carinhas dos filhos ou netos, e vários CDs arrumadinhos numa caixa ao lado da marcha do 'maravilhoso e melhor cantor que este país já teve - Nelson Gonçalves". E eu acho que ele tinha na cara também, um não sei o quê do cantor. A impressão era que eu tinha entrado num carro que me transportou direto para o túnel do tempo, 
Pensei assim; pelo menos não é funk, nem pagode ou música gospel! Resignada e calada, segui ouvindo Nelson Gonçalves e ele me contando que tinha muitos discos do cantor ali e em casa e que aquilo sim é que era música, porque hoje em dia só fazem porcaria e blá, blá, blá. E mamãe, claro, concordando!
O taxista estava contente em compartilhar conosco de sua paixão e de poder mostrar a coleção de seu ídolo e ainda por cima por ter encontrado uma senhorinha que curtia isso tudo que nem ele, e que feliz cantarolava, relembrando bons tempos de sua vida quando o vozeirão do cantor enchia seu coração de romantismo e ela pensava que alguém procurava por ela, na voz do mesmo que dizia: "A deusa da minha rrrrrua (com os erres bem riscados), tem os olhos onde a lua, costuma se embriagar..."

Tx- A senhora sabe que eu tenho o primeiro long play que ele gravou em 1940? Era do meu pai e ficou para mim. Está lá em casa guardado com o maior cuidado.
Eu- Oh que legal!  Mas, uma pena que agora não tem mais como tocar esses discos, não existem mais vitrolas, né mesmo?
Tx- É, mas eu guardo como relíquia, porque vai valer muito no futuro.
Eu- Não sei, mas certamente, será algo valioso para quem trabalha com resgate de músicas e cantores antigos. Quem sabe algum filho do senhor, um dia, também venha a ser fã do Nelson Gonçalves?

Ele fez com a cabeça de lado e balançou com ar meio tristinho, dizendo que não, nenhum dos seus filhos gostava daquelas músicas que ele tanto admirava.

Mamãe-  Mas, o senhor sabia que ele era gago? 
(Claro que ele sabia, ele sabia tudo do cantor,oras!)
Tx- Ah eu sabia sim, mas quando ele cantava, desaparecia a gagueira, né mesmo? Era maravilhoso!

Rimos e foi assim uma viagem agradável e pitoresca, até chegar na porta de meu prédio. Um circuito pequeno, mas cheio de história e de um tempo que não volta mais, só mesmo através da música e do que ela ainda pode transmitir para todos nós. 
Lembranças boas para minha mãe que saiu dali leve, com um sorriso nos lábios e contente porque pode participar da conversa e relembrar o que viveu e o que sabia e depois até valeu a pena ter me acompanhado ao dentista, já que não queria ir, queria ficar em casa descansando. Mas, eu não tinha ninguém para deixar com ela e foi aí que pedi que me acompanhasse rapidinho, e no final foi bem light e ela até gostou da tal saidinha rápida.

De minha parte, que nunca curti Nelson Gonçalves, afinal sou da era Beatles e Jovem Guarda, que agora já é Velha Guarda (abafa!), até gostei de conhecer um pouco desse cantor que fez a festa nos anos 40 e 50 e que, por ter o dom de ser artista, ficou para sempre na lembrança de muitos.






16 comentários:

✿ chica disse...

Imagino que minha mãe também adoraria ter pego esse táxi,rsrs

Ela era fã dele. Hoje, acho que nem lembra mais.Vou perguntar!

Lindos papos e bom pra tua mãe recordar,né?

beijos e como sempre linda viagem aqui contigo! chica

Vivian Fernandes de Goes disse...

Olá,Beth/Lilás!

Nem sempre conseguimos taxis com motoristas tão simpáticos!Não curto muito este tipo de música,mas adoro o conhecimento!Cultura nunca é demais, e mesmo não curtindo é inegável a importância que teve Nelson Gonçalves para a música brasileira!
Beijos!

Anne Lieri disse...

Beth,que história deliciosa de ler!Meu pai está como a sua mãe,só lembra coisas bem antigas e o que é presente ele esquece!Como é pitoresco esse motorista de taxi!Deve amar sua profissão e sua mãe curtiu bastante!...rss...bjs e meu carinho,

ML disse...

Nada como pegar um taxi com motorista educado, né?

bjnhs pra você e sua mãe.

Toninhobira disse...

Vou de taxi,tem estas surpresas Beth.Gosto deste olhar sobre o cotididano.
Realmente o Nelson tem uma historia linda na musica pois foi quem mais gravou LP na epoca,penso que chegou ao 100.Era gago e viciado, boemio sofreu muito pela vida.
Ele tinha uma serie de compositores fantasticos.
Bom para mamãe esta leve e saudosista corrida.

Então vá de Taxi Beth.
Se não me engano não seria a numero 3?
Ou voce não enumerou a primeira?
Carinhoso abraço de paz e luz.
Bom fim de semana amiga.
Bjo.

Beth/Lilás disse...

Oi, Toninho!
Tens razão! Aquele que escrevi para a blogagem coletiva da Norma pode e deve ser considerado o número 1.
Então vou mudar para 3 agora.
Valeu!
beijão
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Calu disse...

Betinha,
uma saidinha que tinha tudo pra ser enfadonha, acabou por se revelar pitoresca, ao menos pra tua mãezinha, que curtiu contente um passeio no táxi e no tempo e, o mais feliz de todos foi o taxista em ter podido compartilhar seu ídolo com duas damas tão gentis.
Isto dá uma minissérie, amiga.
Bjinhos cantantes,
Calu

Priscila Ferreira disse...

Adoreeei novamente o 'vou de taxi'!
Posso estar falando o que podia ficar guardado, mas nunca ouvi falar nesse Nelson Gonçalves rs.
Morri de rir quando fiquei pensando 'que Elisabeth?' kkkk
Beijos dinda!

Teresinha Ferreira disse...

Ah!!!
Que trajeto delicioso, este, heim?
Já que sua mãe gostou é o que importa. Com certeza ela deve ter saído do táxi bem feliz, pois as lembranças devem ter sido boas.
Gosto desta saga...Vou de táxi,
Bom final de semana.
Beijos mil

Bia Jubiart disse...

Beth, quando vi o "III", pensei: Isto daria um livro...
Nasci em 66, porém gosto muito de Nelson, além da voz, as músicas eram puro sentimentos, será que sou careta? Rsrsrsrsrs.

Bella, tenha um fim de semana maravilhoso!

Bjãooooo

Cristina Pavani disse...

Beth, me lembrei da primeira versão da novela "Cabocla". Acho que em 1977...
Um beijo interiorano.

Lúcia Soares disse...

Curti muito o Nelson, mesmo ele já sendo mais velho, mas ainda tocava muito nos anos da minha juventude.
Sua voz é apaixonante, o jeito de falar os "erres" era um charme.
Taxistas são ótimas companhias, dificilmente pego um táxi e não gosto do motorista.
Foi uma feliz viagem para sua mãe.
Mamãe, por dificuldade, anda sempre no banco da frente e sai do táxi "amiga de infância" do motorista. Quando são rapazes mais novos, viram logo seus netos. rsrs
Beijo!

R. R. Barcellos disse...

A tua frota de táxis
Virou cooperativa;
Tem minis, médios e maxis
Com freguesia cativa.
No bata-papo gostoso
De um taxista saudoso
A memória está viva.


Respeitos à senhora sua mãe e parabéns ao bom gosto dela. E cumprimentos a ti pela bela crônica da vida real.
Beijos.

Palavras Vagabundas disse...

Beth,
sinceramente Nelson Rodrigues é melhor que qualquer coisa que tenho ouvido no rádio! Sua mãe deve ter ficado bem feliz e talvez para ela tenha sido melhor que os Beatles, rs
bjs
Jussara

Casa das Bonecas de Pano de Ipiabas disse...

Bom dia adorei seu blog eu vi um recadinho seu na bia e gostei bjs lindo domingo Leila

Georgia Aegerter disse...

Bethinha, eu nao sou dessa era, mas cresci ouvindo Nelson Goncalves e outros dessa época, porque papai adorava e sabe eu adoro até hoje este tempo, essas músicas. O que toca hoje em dia é puro lixo, o que se salva é muito pouco.

Adorei o texto.

Bjos