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quarta-feira, 2 de março de 2011

Nos olhos do jovem arde a chama. Nos do velho brilha a luz. (Victor Hugo)

 (imagem-© Michael Bishop/Illustration Works/Corbis)


Cena comum de se ver por aqui é gente idosa.  Geralmente velhinhas, sendo acompanhadas por uma cuidadora a passear vendo vitrines ou sentadas batendo papo com outras da mesma idade nos diversos bancos que têm espalhados por uma badalada rua aqui do bairro.  Muitas ainda carregam seu cãozinho de estimação para estes passeios diurnos e como adoram uma conversa!  
E eu, como sempre, sou a vítima da vez, mas deve ser porque também já estou ficando uma delas, só que ainda sem cuidadora no meu pé, assim passo mais disfarçada.  Abafa!

Well, mas estou lá no meu hortifruti predileto, agora todo renovado, com apetitosas frutas suculentas que este nosso país tropical nos dá, entre um melão amarelo e outro verde, provando de um e do outro para ver qual deles é mais docinho. Sim, provando!  É que neste maravilhoso hortifruti tem recipientes fechados em acrílico com palitinhos descartáveis também em acrílico, para a gente provar e ficar tentado a levar a fruta até sem ver o preço.
Era um sábado pela manhã e um cara bem apessoado tocava um saxofone reluzente e dourado sendo acompanhado pelo seu teclado eletrônico em sintonia completa com a música. E ele soprava Tons Jobins, Vinícius, Djavans, Chicos e eu só enchendo o carrinho e cantando junto, nem via preço nenhum mais, completamente enlevada com a música e a beleza das frutas, legumes e verduras.  Um truque de marketing muito bem bolado para a gente se perder completamente  e não perceber  os elevados preços que estão as verduras depois das enchentes de janeiro.
Mas, tá bom!  Com uma boa música e um ambiente climatizado recheado de delícias eu fingi que não vi.

Quando noto ao meu lado uma velhinha, simpática, bem arrumada, de chapéu com aba branca e furado na cabeça, de bermuda clara e blusinha cor de rosa, uma fofa!   Disputava comigo os quadradinhos de melão amarelos e verdes.  
Olhamos uma pra outra e começamos a rir da cena.  Pronto, já começou o papo! 

- Ah, eu adoro vir aqui!  Tanta coisa gostosa e fresquinha não é?
- Hummmmm, eu também!
- Sabe quantas vezes eu venho por dia?
- Não! 
- Duas vezes.
- !!! 

E aí começou a me contar sua rotina diária com a maior naturalidade.  Disse-me que tomava seu café, geralmente pelas 8 da manhã, depois assistia a Ana Maria Braga, pegava seu chapeuzinho e descia um quarteirão em direção à praia e ao hortifruti.  Só levava a quantidade para o dia e, geralmente pouco por causa do peso.  Então, era 1 mamão papaya porque é pequeno, meia dúzia de bananas e algum legume ou verdura.  
Ia de volta à casa, tomava seu banho, almoçava e dormia um pouco, depois via a novela da tarde e quando o sol dava uma trégua neste horário de verão brilhante, descia novamente à rua e lá ia em direção ao hortifruti de novo.
Talvez para comprar algo para o lanche ou a janta, mas nunca comprava muito por causa do peso e, principalmente, porque no outro dia queria voltar ao local que tanto gostava.

Dos melões partimos para a seção de pães, conversamos mais um pouco e nos despedimos.

Idade: 82 anos - o nome não perguntei, só me lembrei desse detalhe depois que ela se foi, mas o importante foi o embalo da conversa e a impressão tão viva que ela me passou e me inspirou, para que num futuro eu faça igual, caminhe com as minhas pernas e possa ter o prazer de escolher meu próprio alimento, converse com as pessoas com o coração pleno, sem medos ou vergonha de expor minha velhice no contato com outros seres humanos e que nunca me deixe levar pela melancolia que nos arrebata para a desesperança.



Para entendermos, valorizarmos e ajudarmos nossos idosos, uma excelente dica é acompanhar o Blog Longevidade da amiga Silvia Masc. O link é este aqui. 



"Para o ignorante, a velhice é o inverno da vida; para o sábio, é a época da colheita." 


(Talmude)


"A idade não depende dos anos, mas sim do temperamento e da saúde; umas pessoas já nascem velhas, outras jamais envelhecem." 
(Tyron Edwards)


"Os anos enrugam a pele, mas renunciar ao entusiasmo faz enrugar a alma." 
(Albert Schweitzer)







21 comentários:

Taia Assunção disse...

Ai que lindo...sempre dizia para a minha menina mais velha que ela devia ser geriatra...ela tem açúcar para atrair idosos...rsrsrsrs. Menina, me vi nessa rotina dessa senhora...rsrsrsrs. Mas só quando estou no Congo, valei-me! Beijocas e que tenhamos sorte de chegar lá!

Eve Horn disse...

Oi Beth, bom dia como vai?
Então, é o seguinte eu vim aqui pra te pedir um favor e deixar uma sugestão sobre o blog.
Adoro o blog é um dos que mais gosto de ler nesse universo mamífero. Acontece que leio através do reader e a sugestão é que você possa liberar a visualização do post completo porque assim facilita para quem le através desse sistema. Hoje, só se lê uma breve introdução do texto.Bom, é só uma sugestão mesmo, porque as vezes dá "trabalho" pra lê-lo, rs.
Desculpa por alguma coisa e obrigada por me ouvir.

Beijos

Pitanga Doce disse...

Já vi que este teu hortifruti e um programa no bairro. hehe
Mas olha, não podes reclamar dos preços já que tens música ao vivo. É preciso pagar o couvert artístico. :-)))

Beijos e... será que chegou mesmo o Outono? O céu está cinzento mas o calor continua.

Lu Souza Brito disse...

Olá Beth,

Vamos por parte: primeiro eu amei a imagem.
Depois, achei logo que tinha passado por outra situação como a da velhinha faladeira que gostava de contar vantagens, ahahah.
Mas fiquei pensando o quanto deve ser bom poder fazer suas proprias escolhas e andar com as proprias pernas independente da idade não é?
Minha vó sempre foi assim (até uns 75 anos +/-, quando foi diagnosticada com Alzheimer). Sabe que nos momentos de lucidez, a queixa dela é justamente essa. Não poder fazer o que quer e como gosta.
Para completar, todas as reflexões abaixo são perfeitas.
Conheço tanta gente que já nasceu velha, ahahahah. Eu mesma por vezes me vejo uma velhinha / chatinha/rabugenta, kkkkkkkkkkk.
Beijos

Lucia Cintra disse...

Sabe, eu acho importante conversar com pessoas mais velhas, pois sao mais sabias e voce pode aprender tanto com elas... Sem falar que eu acho gostoso saber da sua vidinha e elas sempre tem um prazer tao grande em contar! Gosto mesmo e nunca ignoro ou tento sair de perto da pessoa, pois esse momento faz diferenca pra nos duas.

bjos

pensandoemfamilia disse...

Oi Beth

Bom que saiba aproveitar o tempo unindo compras necessárias ``as conversa e, ainda mais, ao som de belas músicas.
Saber usar um tempo, poucas pessoas o fazem e vc deu o seu exemplo e da senhorinha""deus a tenha")tão lúcida e buscando manter sua independência física.
Este é um tema de extrema importãncia, pois a população está envelhecendo e é necessário buscar-se estratégias para o bem viver.
bjs.

Turquezza disse...

Vidinha boa essa, né? Poder viver muito e com saúde ..........
Sempre gostei de conversar com pessoas com mais idade que eu, agora já não sou tão nova, mas continuo assim. Não posso ver uma idosa num banquinho que sento perto e puxo conversa. Distrai ela e à mim. Lições de vida .......
Saborear o dia de hoje. Amanhã? Não sabemos ...... Beijos.

meus instantes e momentos disse...

parabens pelo post.
Belo blog.
Maurizio

Glorinha L de Lion disse...

Que post lindo, Betita! Imagem e texto! A estória envolvente, como todas as que conta das "suas" velhinhas de Icaraí...hehe Nem sempre fofas como essa, né?
Acho que o segredo de viver bem na velhice é ser ativo, ter o que fazer, se ocupar, e, principalmente ver beleza no simples fato de sair pra comprar um mamão papaia...Vamos ficar assim, as duas, bracinhos dados, indo no hortifruti, discutindo qual dos melões está mais doce...rsrsrs Beijos, lindo texto,

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

que post lindo.
e eu adoro melão rs. Beth, eu vivo bicando nesses provadores, vou passando e experimentando de tudo, não conta pra ninguém.

vejo mtos velhinhos com 80 anos ou mais...mas lúcidos, ativos, felizes. estão nas compras, nos passeios, tirando fotos de flores, conversando na praça, caminhando ou fazendo ginástica. eu tb os tomo como exemplos, tb quero chegar lá com saúde e lucidez, sem dar trabalho pra ninguém.

adorei esse post, excelente.

Tati disse...

Beth, que texto liiindo e sensível! Quando eu morava em niterói (te contei que morei aí por alguns meses?) morava na Alvares de Azevedo, pertinho do Hortifruti (é desse que você está falando?). E amava! Aliás, amei morar em Niterói e já cantei o VI algumas vezes para voltar. Rsrs. Mas sei que o foco maior é a velhinha fofa e fiquei encantada com a história. Já pensou que você também pode ter feito o dia dela mais rio? Sim, por que com certeza ela vai duas vezes ao dia, mas nem sempre encontra tão boa companhia, disposta a lhe dedicar alguns minutinhos de seu dia.
Ah, e obrigada pelo apoio, viu. Você não existe!
Beijos.

Cucchiaio pieno disse...

Doce Beth
Imagino que lindo dia você passou e o quanto recebeu dessa senhorinha fofa. Também levarei esse rico exemplo comigo, muito obrigada por compartilhar!
Irei até o blog que indicaste!
Bjo no teu coração
Léia

welze disse...

que delícia de post minha linda. citar Talmude é sempre bom demais da conta e a Silvia Masc é realmente uma fofa. adoro tudo isso. um grande beijo

Thaís leão disse...

Betina!Adorei vc assumindo sua velhice "mas sem cuidadora, ainda dá pra disfarçar"!
hauahuhauhuhuahuauhu!
Só vc!Vai sobrar pra mim,né?
Carregar as duas véia coroca pro cinema, pro bailinho dos idosos, pro hortifruti...
hauhauhauhuauha!
Tô brincando, é muito bom ver vcs como duas adolescentes!
beijos

Cacá - José Cláudio disse...

Depois que eu assisti ao vídeo da palestra do Cortella, NÃO NASCEMOS PRONTOS, dá para refletir que envelhecer é uma coisa muito valiosa, se feito com dignidade. E havendo saúde, (pois não quero ficar dependente de cuidadores também), será deveras uma grande colheita. Abraços, Beth. Paz e bem.

gabriela disse...

Olá amiga adorei o teu post é tão bom conviver com os idosos nos ensinam tanta coisa, o meu filho está estagiando num centro de dia, onde é muito acarinhado pelos nossos idosos chamam-lha neto, e ele trata-os a todos com muito carinho, todos os dias eles dão um chocolate a ele uma forma de agradeçer.
Eu penso muitas vezes como serei eu daqui a alguns anos, imagino-me uma velha gaiteira com muita alegria adoro a vida beijo grande amiga

lolipop disse...

O seu post diz muito de vc Beth...alguém com os sentidos bem despertos para a vida. Capaz de se render ao som dum saxofone e de sorrir para a pessoa que disputa consigo a fruta...
Que bom ver alguém com essa idade capaz de desfrutar ainda e de gerir sua própria vida...
Carinhossssss

ML disse...

É ou não é o maior luxo da vida chegar lá longe com a cabeça boa? Sendo bacana com o mundo, e em paz consigo mesmo?

Que bom encontro esse Beth.

bjnhs

orvalho do ceu disse...

Olá, querida Beth
Voltei da roça que fica em Casemiro de Abreu... rodeada de Fazendas...
Estou bucólica!!!
Vou diariamente ao Hort Fruit pelo mesmo motivo que o seu e o da amiga bondosa que conheceu... Bom demais!!! E até duas vezes e bem devagar...
Oferecerei um Retiro Espiritual de Domingo à Terça em meu Blog...
Excelente feriadão!!!
Seja feliz e abençoda!!!
Bjs de paz

Ana disse...

Se Deus quiser vou ser uma velhinha saudável, lúcida e bem humorada!
Histórias como essa são inspiradoras!

Bj!!

Lúcia Soares disse...

Tão bom curtir a velhice com saúde, Beth.
Mas quando ela é precária, não é fácil.
Para não envelhecer a mente, temos que pensar com positividade.
A doença aparece para quem é pessimista, lamenta a passagem do tempo, entristece por envelhecer.
Ainda estou longe, mas espero ser uma velhinha eXperta e feliz!
Beijo!