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terça-feira, 29 de março de 2011

A chuva a rolar e o vento a cantar


Na minha infância os verões eram tão diferentes.  Fazia muito calor durante o dia no Rio de Janeiro, mas invariavelmente chovia à tardinha e essas chuvas de verão eram fortes, escorriam como um rio caudaloso na rua de minha memória, sem calçamento por longo tempo, entre as pedrinhas, formando pequenas quedas d'água que eu espiava através da janela lateral do meu quarto com um certo respeito.
Minha mãe guardava coisas de roça, de avó ou bisavó, como por exemplo; tapar os espelhos com toalhas ou esconder em gavetas tesouras e objetos de aço. Dizia que atraia raios.  Eu não entendia bem nada daquilo,
mas confesso que tinha  medo de trovões, ficava quietinha no meu canto, esperando o barulho enorme que viria depois da luz azulada dos raios e minha vontade era de entrar no guarda roupas se estes temporais fossem à noite.

Os temporais de agora ainda vêm com raios e trovões, mas sua maior característica é a quantidade absurda de água que cai e às vezes por muito tempo, por isso vemos tanta destruição em certos locais. Outro fato interessante é que podem ser localizadas em um determinado ponto, como num bairro apenas e noutro bem ao lado nenhum vestígio de chuva.

Neste domingo um temporal repentino se formou lá na serra. Depois de uma manhã quente e ensolarada, deu até piscina, mas lá pela 15 horas desabou o céu, com nuvens densas e vento forte que açoitou os pinheiros e outras árvores por quase 50 minutos.


Embora eu tema pelas pessoas que não têm boas casas para se abrigar numa hora dessas, fico também atraída pela beleza da manifestação da natureza num momento assim, onde água, terra e vegetação se movimentam juntas como num balé harmonioso ao som da 6a. Sinfonia de Beethoven bem diante de minha janela. E, claro, cliquei!



Esta foto acima, meu filho fez logo após o temporal e este grande pinheiro ficou encharcado, chegando a abrir seus galhos e deixar no chão alguns pequenos ninhos.  Tanta vida mora ali em seu interior e a chuva, benéfica por um lado, atrapalhou naquele momento o habitat desses pequenos seres, mas isto faz parte do ciclo da natureza e não há como interferir no processo.

Passado o forte temporal que foi praticamente pontual ali naquele lugar, pois constatei que a poucos quilômetros de minha casa nenhum pingo de chuva havia nas ruas ou na terra, o sol reapareceu atrás de algumas montanhas, o ar ficou deliciosamente fresco e a mata mais exuberante ainda.

A chuva deste domingo foi parecida com as de meu tempo de criança, forte, barulhenta e que seguiu-se de uma expectativa de um entardecer calmo, com cheiro de mato molhado e tudo renovado, inclusive nossas almas que ficaram mais leves diante de tanta beleza.

E pra terminar este post, deixo-lhes a alegria expressa por Guimarães Rosa diante da chegada do céu cinzento e do cheiro d'água lá na serra:

Chuva

Vai chover chuva de vento.
Já estou sentindo um cheiro d'água,
que vem do céu cinzento.
As formigas lavadeiras cruzam o quintal
em filas compridas de correição.
Minhocas brotam à flor da terra.
- Eh aguão!...
A chuva vai vir da banda da serra,
porque o joão-de-barro abriu a sua porta
virada para o sul.
As sementinhas do meloso seco
devem estar lançando na poeira.
Eu não ouvi o primeiro trovão,
mas o zebu está escutando,
com a cabeça encostada no chão.

Três urubus passam no alto,
em vôo lento,
em reta longa.
Vão para as lapas dos lajedos.
"Vai fazer tua casa, Urubu!...
Tempo de chuva aí vem, Urubu!..."

Já deve estar chovendo nas cabeceiras da serra,
porque o ribeirão engrossa, cor de terra.
Vai chover chuva de vento.
Os bois vêm correndo, pasto abaixo,
procurando as árvores do capão.

Vai invernar...
Eu hoje amanheci alegre,
querendo cantar...
O vento já chegou nas casuarinas,
e o sapo saiu de debaixo da laje
para um buraco no meio do pátio
onde vai se encher uma lagoa.
- Eh aguão!...
- Olá, José, arreia meu Cabiúna,
liso do casco à testa,
preto do rabo à crina,
que eu vou sair pelo cerrado afora,
a galopar, com a chuva me correndo atrás...
Ela já vem, branquinha, cheirando a água nova,
e a serra está clarinha, neblinando...
A chuva vem rolando, vem chiando,
e o vento assoviando
- Galopa, Cabiúna, que a água vem vindo,
e as sementinhas do meloso seco estão dançando...

Guimarães Rosa
(1908-1967)

21 comentários:

Cacá - José Cláudio disse...

Que delícia, Beth! E que saudade da minha infância! Acho que à medida em que as cidades vão crescendo a gente vai perdendo um pouco a noção da beleza dos ciclos da natureza que são menos visíveis e manifestam-se irregularmente nesse locais. No interior onde a visão horizontal é mais ampliada a gente tem uma percepção melhor (ainda). PS: esta lembrança de objetos de metal que atrairiam raios é uma outra coisa que foi muito presente em minha infância: às vezes a gente tinha que largar o almoço ou jantar para não ficar segurando talheres enquanto a tempestade não passsse. rsrs. Adorei. Abraços. Paz e bem.

chica disse...

Eu fico babando pelas manifestações lindas da natureza...Até na chuva(quando não faz danos)ela é linda e essas fotos são de ficar parada olhando e refletindo...LINDO!beijos,chica

♕Miss Cíntia Arruda Leite ღ disse...

É Beth querida, acho que cada ano as estações estão misturadas e muito diferentes!! E confesso também que sou apaixonada pela chuva e por toda beleza que vem com ela, como essas belíssimas fotos!

beijos

Glorinha L de Lion disse...

Fotos lindas, texto delicioso me fez lembrar dos temporais de verão da minha infância. Adoro chuva, cheiro de terra molhada, ver caindo e lavando tudo...acho que atualmente gosto mais da chuva do que do sol....ando triste, vai ver é isso, beijos,

pensandoemfamilia disse...

A manifstação da natureza é um esplendor, mas que tem nos assustado, ultimamente. Mas também me recordo do que relatou em relação aos cuidados familiares em relação aos trovões.
As fotos est]ao muito expressiva de ruddo que nos relata.
bjs

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Nossa, Beth, que post lindo! seja pelas palavras ou pelas suas fotos e a foto do filhão.
é a paisagem que gosto muito, muito verde, montanha, chuva, nuvens e céu.
adoro sentir o cheiro da chuva tb, tb me lembro de ver a chuva da janela da fazenda da minha avó... a chuva q caia pelas pedrinhas, formava pequenos riachinhos, uns trovões bonitos rs... e minha avó tb cobria espelho e escondia tesoura rs.

o homem bagunçou demais a natureza, a chuva hj agride e incomoda... pra vc ver a distância que estamos do que realmente é natural e real.

adorei o post! nota mil

Pitanga Doce disse...

Ai Beth que fotos tão lindas! Olha, tem biólogo por aí? É que esses cuidados com os animais que habitam as plantações, tem assim um ar de "bicho grilo" que nem um que eu tenho aqui em casa. hehehe

Esses versos de Guimarães Rosa lembram aquela brincadeira: "Urubu, vai chover"?

Por aqui o céu está azul, mas venta forte com as portas e janelas a bater desvairadas. hehe

Élys disse...

Gosto da chuva que cai mansa, do cheiro da terra molhada. Sinto saudade do tempo de criança quando, até as tempestades eram mais mansas.
Lindo o seu post.
Um beijo.

Nilce disse...

Oi Beth

Você escreve maravilhosamente sobre qualquer assunto. Mas, quando fala da Natureza teu coração fica presente no texto. Sentimos a tua emoção, amor e orgulho dela.
Parabéns pelo texto querida.
Lindas as fotos!
Sabe que meus verões também foram assim e com estes costumes.

Bjs no coração!

Nilce

Nina disse...

Que lindo e agradável post, e que fotos lindas que vcs fizeram. Tuas lembrancas lembram mt as minhas tbm, qd mamae colocava panos sobre os espelhos, ela dizia que atraia raios, vai saber se é verdade, sei lá... eu adorava ouvir a chuva cair, qd moramos em casinhas com telhado de zinco (!!) sim, zinco, em Manaus, ohh terrível, no calor infernal era pavaroso mas qd chovia, putz, coisa boa era ir dormir ouvindo a chuva no teto, delícia!

hj em dia chuva tbm me dá medo, essa chuvinha fininha que se prolonga é o grande problema mesmo, ela vai lavando a terra que nao tem mais nenhuma protecao e ai a gente já sabe onde ela vai parar... é de dar medo mesmo.

As fotos estao lindíssimas, vc tá se superando nelas heim dona Beth?

Manuela Freitas disse...

OLá querida Beth,
Tu de facto estás caprichando nos teus posts, adorei este! Desde o texto, à música, às fotografias, ao poema...está belíssimo!
Claro que aqui também troveja e pode chuver bastante, lembro-me em miúda de me meter debaixo dos cobertores com a minha irmã! E alguém pedia clemência à Santa Bárbara!
Beijinhos,
Manu

Carla Farinazzi disse...

Olá Beth!

Que post lindo!
Eu também fico encantada com a beleza e a força descomunal que a natureza mostra às vezes. Aquele aguaceiro despencando do céu, enchendo o ambiente com o cheiro da chuva misturado ao da terra... eu gosto muito de tempestades! Sei que são perigosas, mas há beleza no perigo.
As fotos ficaram simplesmente fantásticas, parabéns!

Beijos

Carla

Carla Farinazzi disse...

Tudo bem que eu tô três dias atrasada, mas voltei apenas para te deixar um super-beijo de aniversário e desejar a você muitas coisas boas nessa vida; que você continue nos presenteando com seus textos tão lindos e sua sabedoria ímpar.

Beijão

Carla

Bombom disse...

Magníficas fotos desses dias de temporal! Aqui em Portugal, antigamente eram mais no Outono e no Inverno, mas nestes últimos anos, aparecem em qualquer altura e em qualquer lugar, sob a forma de tornados. E arrasam tudo por onde passam! É o resultado das agressões que a Natureza tem sofrido!...
Gostei muito de passar contigo este tempo, "por detrás da janela". Bjs. Bombom

Teresinha Ferreira disse...

Olá Beth,
Amei as fotos...Você e o Daniel estão de parabéns!!
Belíssimo post...
Realmente as chuvas estão vindo com muita força...Muita água e muito temor.
Eu confesso que adoro estar em casa ouvindo uma chuva finininha e tranquila..Sem trovões nem relâmpagos, nem ventos fortes(tenho medo...pavor).
O tempo está mudando...As estações não são como antes...Ah!!!
Tudo de bom...
Bjs mil

orvalho do ceu disse...

Olá, Beth querida
Ainda bem que estive 7 dias na roça, caso contrário, ficaria com uma santa inveja do seu mato lindo... ah!!! Que saudade de Petrópolis, amiga!!!
E por falar em coisa boa... FELIZ NÍVER, Bethinha!!!
Chegando de novo aqui vi alguns posts de felicitação... muito legal!!!
Bjs de paz e excelente semana... mesmo que mais velhinha...

ManDrag disse...

Notável como a chuva e a tempestade têm um efeito cativante nas almas sensíveis e poéticas. Será o apelo da água-mãe?

Abraços

Taia Assunção disse...

Belas imagens, tem chovido bastante pelas bandas de cá, mas o resultado é no máximo a grama verde. Faltam árvores, cortaram praticamente todas, uma pena porque na seca que dura seis meses a paisagem fica desértica. É melhor eu começar a me preparar. Beijocas!

Silvia Masc disse...

Amo a chuva, o refrescar e o cheirinho que ela trás. Olhando um vídeo em tempo real da trágédia recente no Japão, fiquei observando como esses fenômenos,ao tempo mesmo que devastadores são tão bonitos.
beijinho

Lu Souza Brito disse...

Beth, esse seu post está lindo:
As lembranças de infancia (também nao gosto de trovôes, mas tenho ainda mais medo dos relâmpagos), a música, as fotos e esse poema lindo.
Quando morava no interior também nao podia chegar perto da janela, pegar talheres ou deixar o espelho descoberto no momento das chuvas.
Semana passada cai uma chuva daquelas aqui onde trabalho (inclusive com queda de energia por mais de 2 horas). Onde moro (a pouco mais de 15km, nem se sentiu cheiro de chuva.
Tá uma loucura estas estações.
Beijooos

Vera Lucia Marques disse...

Tudo muito lindo. A descrição, as fotos, a poesia de Guimarães Rosa. A vida é linda! Abrs!