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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Poeta da Crônica e seu centenário



Primeiramente a crônica, com o traço inconfundível de um dos maiores escritores brasileiros desse gênero, considerado por muitos como um gênero menor, mas para mim, crônicas, quando bem escritas, com uma pitada de ternura, compaixão, visão politicamente correta,  ironia e  muita inteligência como as do maravilhoso autor que amanhã completaria 100 anos - Rubem Braga - são verdadeiros tratados sociais e inesquecíveis.

O Padeiro


Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento – mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo. 

Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando: - Não é ninguém, é o padeiro! Interroguei-o uma vez: como tivera a idéia de gritar aquilo? ”Então você não é ninguém?” Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido.

Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém… 

Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno.

Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina – e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno. Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome.

O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”E assobiava pelas escadas.
 


                                         
1913-1990 
               

Rubem Braga faleceu em 1990 de câncer 








15 comentários:

Cristina disse...

Que belo, Beth!
Adoro Rubem Braga, amo crônicas... E me lembrei de quando entrava no trabalho `as seis da manhã, aos treze anos de idade.
Ia pela madrugada feliz, passando despercebida.
Batia na portinha do emprego, e alguma colega dizia:
_ Que susto! Pensei que fosse gente...

Lúcia Soares disse...

Beth, que delícia de texto! Adoro Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, só pra falar de alguns. Crônicas são retratos falados do cotidiano, é uma linguagem livre, leve, gostosa de ler. Temos tantos bons cronistas que até fica difícil falar do preferido.
Que feliz foi esse padeiro, que não se importava em ser "ninguém". Tem muita gente que realmente não é ninguém, em termos de valor moral e ético e se acha importante.
Fico mais leve depois dessa leitura.
Beijo e bom fim de semana.

Priscila Ferreira disse...

Gostei do texto, não conhecia!
beijos dinda

Dulce disse...

Bom dia, Beth
A crônicas de Rubem Braga sempre me encantam. Linda homenagem.
Beijos e bom final de semana

Anônimo disse...

Aprendi com o cronista
Que é preciso ser alguém
Para dizer, otimista:
"Muito prazer! Sou ninguém!"


Beijo.

✿ chica disse...

Ele é maravilhoso! Linda escolha!
b eijos praianos,chica

Clarice Lúcia Silva disse...

Que texto lindo!
É verdade, às vezes falamos essas besteiras, ou escutamos, e agimos como se fosse a coisa mais normal do mundo. Vai ver que é mesmo!

Beijos

Calu disse...

Esta crônica ilustrou um trabalho de sociologia da educação pavimentando a ponte entre literatura-sociologia-educação__ os invisíveis.

Viu só amiga, como tua feliz homenagem me fez reviver de lá detrás um acontecimento marcante?

Vc tem este condão, nos leva por trilhas lindas e significativas, nos desperta para lembranças importantes, nos comove, nos alegra e ajuda a enfeitar nossos dias.
Considero o grande Rubem Braga e seu igual, João do Rio, os dois mais fiéis retratistas do cotidiano no século XX.
Um proveitoso fim de semana, Betinha, com este frescor maravilhoso.
Bjos lilases,
Calu

Beatriz disse...

Também sou fã de Rubem Braga, Beth!
Que lindo texto, escolhido a dedo, exemplo de humildade.....
Meu querido avô me contava estórias parecidas, quando o padeiro, o carteiro ou o leiteiro entregavam em sua porta, dia sim, dia não....

Beijinhos e um bom domingo!

Bia
www.biaviagemambiental.blogspot.com

Teresinha disse...

Olá Beth,
Homem com mente brilhante e textos encantadores.

Estou com um novo blog.
www.teredecorando.blogspot.com

Beijos mil

ML disse...

Eu achei linda!


bjnhs e ótima semana, Beth!

pensandoemfamilia disse...

Olá Beth

Nosso escritor preferido, não é mesmo?
Retornando de viagem contactando saudosa os amigos,
bjs

Márcia Cobar disse...

Betinha,
Adoro ler aqui no seu blog as citações que você seleciona de ilustres escritores e cronistas.
Muito delicada a crônica do padeiro... Tão lúcida, tão real...
Quantas pessoas se sentem, assim como o padeiro, "ninguém"...
Beijos
Márcia


Regina Rozenbaum disse...

Escolha bacana demais Bethita...prá variar, né moça?!
Beijuuss

Toninho disse...

Linda homenagem com esta bela cronica dele.Não tem melhor mesmo.
E suas cronicas de tão bem feitas são atuais.
Meu terno abraço amiga.
Bjo