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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

À luz da psicanálise


-Imagem Bing-


Na semana passada, no salão de cabeleireiro, conversava com uma mulher, simpática, de meia idade e com uma vasta bagagem de vida.  Estava se preparando para ir conhecer o netinho que nascera aquela semana em São Paulo.  A conversa estava boa, mas ela era uma pessoa bastante prolixa, usava mais palavras do que o necessário para explicar alguma coisa, mas como eu sou uma ótima ouvinte, meus amigos assim o dizem, ou tenho um enorme saco para essas coisas, fui levando a conversa, ela falando mais do que eu e contando os 'causos' de sua vida cheia de estórias na juventude sob a vigilância atenta e rígida do pai general.
Então ela começou a falar dele, o pai, até chegar à sua morte, mas não falava o nome da doença que o levara, deixava subentendido qual era, porém não citou o nome nenhuma vez.  Percebi um certo tabu com relação a falar que o pai tinha morrido de câncer, mas tudo bem, cada um tem um jeito de se expressar e muitas vezes é de acordo com o que aprendeu com seus pais, sua família ou sua religiosidade. 
De minha parte eu não vejo nenhum problema em mencionar o nome de doenças, pois sempre achei que todo e qualquer mal que possa nos atingir é uma coisa natural em nossas vidas, afinal não somos postes e sim gente de carne e osso, frágeis em nossa breve humanidade.

Mais uma vez, encontro nas palavras sábias de Rubem Alves, alento e esclarecimentos, através deste pequeno texto sobre este aspecto no comportamento das pessoas.  Vejam que interessante:

Remédio contra a morte

Há doenças que só chateiam; resfriado, torcicolo, frieira, hemorroidas...
Ninguém pensa que vai morrer por causa delas - só se for uma pessoa perturbada da cabeça.  Doente com essas doenças, o incômodo fica nosso companheiro, em todas as horas.  Mas há outras doenças que, inevitavelmente, trazem consigo a possibilidade da morte.  Quem tem câncer pensa em morte.  Quem tem uma insuficiência renal crônica pensa em morte.  Quem tem leucemia pensa em morte. Quem tem aids pensa em morte.  Quem sofre de uma degeneração progressiva do sistema nervoso pensa em morte.   Só o nome da doença já traz a companhia do fantasma da morte.  E o corpo fica sendo um lugar mal-assombrado.  Alguns pensam que o remédio contra o fantasma é não falar nele.  Tive um tio de quem eu muito gostava que se recusava a ir ao médico.  E a sua justificativa era: "Pode ser que eu tenha alguma coisa". Ele pensava que a coisa só existe quando é falada.  Assim, o remédio contra a morte é não falar.  Pensamento positivo!  Falemos sobre música e flores!  Sobre futebol e política!  O remédio contra o fantasma da morte é a "distração"!  Nada mais tolo ...
Quando não admitimos a morte na sala de visitas ela nos invade pela porta da cozinha, aloja-se silenciosamente no corpo a ali faz o seu trabalho de ansiedade, medo e raiva. Traduzido em linguagem psicanalítica: quando a morte é reprimida no consciente, ela nos penetra via inconsciente.  Só há uma forma de exorcizar o demônio da morte: é falando honestamente sobre ela, chamando-a pelo seu nome.  Os demônios são exorcizados quando o seu nome é pronunciado em voz alta: essa é uma lição que nos vem dos evangelhos e da psicanálise.  Sobre isso escrevi, há muitos anos, uma estória para a minha filha pequena e para os adultos que quisessem:   A menina e a pantera negra.  Ela sonhou com uma pantera negra.  Do sonho surgiu a estória.  A pantera negra urrava durante as noites amedrontando todo mundo na casa.  Ela parou de urrar quando a menina descobriu o seu nome e a chamou.  Aí ela se aproximou e colocou seu focinho no colo da menina ...  E seus urros se transformaram num ronronar macio ...



-Rubem Alves é psicanalista, educador, teólogo e escritor.






20 comentários:

Nane Cabral disse...

Olá, lindo post! ah, está tendo sorteio lá no blog, participe! Beijinhos, Nane www.vovoqueensinou.blogspot.com

Pandora disse...

Adorei!!! Super verdade, a gente pensa que não falar é melhor, tenta se preservar e acaba morrendo por dentro no silêncio!!! Sempre digo que o silêncio também é uma forma de sensura de opressão, o melhor é falar, falar, falar até esgotar o tema!!!

Uma vez li um proverbio em um papelinho de chá que dizia que quando se tem um problema é bom falar sobre ele com 10 pessoas, quando a gente falar a decima o problema parecerá menor e isso é verdade!

Celina Dutra disse...

Beth, carioca, querida,

Post lindo! Preciso comprar uns livros do seu filósofo. Você poderia nos indicar! rsrsrs. A história da pantera negra lembrou-me a psicanalista, e cantadeira de histórias, Clarisse Pinkola Estés, já fiz um post sobre ela. Ela diz o mesmo que seu filósofo, falar o nome (descobrir o nome) é conhecer a essência do ser ou da coisa.

Girassóis nos seus dias.
Beijos

Heloísa disse...

Beth,
Essa atitude de não pronunciar o nome das doenças era mias comum nos tempos antigos. Mas é incrível como, ainda hoje, muitos mantêm esse comportamento, como se a pessoa doente tivesse alguma culpa de estar com o problema.
Beijo.

Paloma disse...

BETH, sempre que falamos de algo que nos preocupa, no término da conversa, temos a sensação de que não era tão sério quanto parecia,nem tão assustador. Assim é com as doenças.

Beijo

Gina disse...

Beth,
Estamos a três dias da coletiva fases da vida, onde a abordagem será a morte. Seu texto ficaria muito apropriado para reflexão nesse dia.
Não tem jeito de ignorar a realidade da morte, mas continua sendo um tabu.
E esse Museu de Cera é mais uma atração para essa cidade encantadora, que é Petrópolis.
Boa semana!

Kelly Kobor Dias disse...

Oi querida, que saudade !!! Doença é algo muito muito chato!!!
Sabe que tenho uam colega de trabalho que também fala muito para explicar uma situação, não importa quão simples ela seja? Quando estou com pressa é uma dureza, um simples recado não sai por menos de meia hora rsrsr
beijos

Valéria disse...

Oi Beth!´
Acho que quem age assim é como se desejasse esquecer, negar a realidade. Falar é uma forma de exorcizar.
Beijinhos e uma ótima semana!

Márcia Cobar disse...

Oi Beth!
Adorei seu post, sabe que muitas vezes leio aqui no seu espaco situacoes cotidianas tao significativas! Voce leva as conversas para um nivel diferente de entendimento e profundidade!
O texto do Rubem Alvez e maravilhoso!
Abs
Marcia

Luciana disse...

Rubem Alves é ótimo, sempre bom ler.
Eu também não tenho nenhum problema em falar nome de doencas, mas Deus me livre de todas elas, ou melhor, Deus nos livre.

Beijo

Cacá - José Cláudio disse...

Muito apropriado, Beth. Na minha infância havia palavras proibidas e o câncer era uma delas. A religiosidade e o mistério levavam as pessoas a tribuírem ao além tudo aquilo que não sabiam (e nem procuravam saber como acontece muito ainda hoje em dia). Então ficava esta tolice tentando afastar um mal evitando se falar dele. Gostei demais. Meu abraço. Paz e bem.

Silvia Masc disse...

Beth, Ainda há muita ignorância sobre essa doença, por isso acho muito importante quando ela acomete pessoas públicas, não serem escondidas, é uma maneira de ir acabando com esse tabú através da informação. A Heloisa lembrou uma situação importante,que é a tendência do mal informado de atribuir culpa à que adoeceu com câncer, nos dias de hoje hoje ainda existem pessoas que dizem uma frase que me arrepia, "Fulana FEZ um câncer", ou ela era tão assim ou assado que FEZ um câncer, não discuto que alguns estados emocionais, aceleram alguns processos, mas o indivíduo não fica doente porque quer, e ouvir isso em um momento de tanta fragilidade, é realmente cruel. E pensar isso de alguém, eu acho maldade extrema.
Excelente o seu post.
beijinho

Menina no Sotão disse...

Meu avô materno (brasileiro) tinha medo dessa doença também. Não podia ouvir falar nessa palavra. Eu não a temo, a respeito, mas acho que em alguns casos é uma doença que ensina a viver. já vi muitos casos assim e pessoas que sobreviveram graças a constatação de que estavam vivos. É estranho, mas acontece.
Meu avô materno morreu aos 92 anos com mal de parkinson, doença que ele nunca conseguiu dizer o nome...

bacio

Ps. Cada dia que passa gosto mais de Ruben Alves e um pouco disso é graças a ti.

Glorinha L de Lion disse...

Acho que a minha "velhinha" te inspirou...ou não? Pois é, tanta gente tem medo da morte que evita falar ou sequer pensar nela...como convivi desde muito cedo com a dita cuja, aprendi que ela anda de mãos dadas com a gente desde a concepção...e isso é tão natural quanto respirar. Esse sentimento de finitude que tenho, acaba influenciando as pessoas à minha volta. E, sem querer parecer presunçosa... amiga, como vc mudou desde que te conheci! Vc tem me ensinado a ser mais generosa e eu, tenho te mostrado um lado de vida no qual vc se negava a pensar...tem sido uma troca e tanto, né? E assim, vamos aprendendo uma com a outra o que nos falta...essa é a verdadeira amizade,
Beijão,

Teresinha Ferreira disse...

Olá Beth,
Eu não vejo porque omitir o nome da doença. Hoje está mais do que comum. Pena, mas é a pura verdade.
Eu e o André estivemos no Rio. Apenas três dias. Fomos ao teatro ver a Rosane. Eu achei bacanérrimo. Ela é uma fera na interpretação.
Bjs mil

pensandoemfamilia disse...

Somos fã deste escrito, filosófo e tudo mais que seja. Sempre encontramos em suas palavras um saber que nos ajude na caminhada da vida.
bjs

Teresinha Ferreira disse...

Olá Beth,
Se você quiser ver a peça vai ter que esperar, pois a Rosane Gofman quebrou a perna...Coitada.
Bjs mil

She disse...

Oi Beth! Muito bom, o post e a reflexão... Isso de não falar a palavra câncer era muito mais comum antigamente, né?! Mas para algumas pessoas isso fica mesmo enraizado... Beijo, beijo!
She

Camille disse...

Mito bom Beth, adorei a correlaçao de idéias. Nao falar da morte nao a afasta. Precisamos viver apesar de. E ate dar um sentido para a vida, que inclui a morte o tempo todo. O fato de ser finita nao a invalida, ate por que so temos essa e essa inclui morrer. O sser humano nada quer saber sobre isso e para isso a psicanalise esta ai. Nao para aliviar, mas para ajudar ao assujeitamento e depois sim ate melhorar a dor de se saber fragil, percivel. Gosto dos teus posts, voce é uma criatura muito humana. Estou aprendendo a gostar de voce pela tua escrita.
Beijos da Cam

Toninhobira disse...

Lá na minha infancia, as pessoas não falam de doenças com seus nomes,que lembram o quase morte.Minha mãe então fazia voltas para o eufemismo,que ela nem sabia.Doença e morte é preciso olhar de frente e creio que esta mudança de comportamento tem ajudado às pessoas se tratarem e até se livrar temporariamente da morte.
Um belo texto amiga carioca.
Bju e abraço mineiro a voce.