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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Respeito é Bom

Deixo por hoje o texto da maravilhosa Lya Luft que diz tudo o que penso e tenho vivivo de perto, principalmente depois que vim morar nesta cidade próxima ao Rio de Janeiro e que recebe a influência total desses meios urbanos mais densos e conturbados.


Respeito é bom
"Sendo humanos, homens, mulheres e crianças, somos ainda animais predadores, querendo ocupar espaço a patadas. A gente precisa ser domesticado desde o dia em que nasce"



Respeito é bom e eu gosto", diz uma das mil frases feitas - esse sutil veneno ou pontapé no estômago - que pontilham nossa sabedoria dita popular. Vale para muitos aspectos da nossa vida. Vamos ver alguns.
Escuto frequentemente a queixa de mulheres de que ainda não são respeitadas como merecem, em seu trabalho ou individualmente. Primeiro, é uma questão de tempo, pois em quase todos os territórios da atividade humana, menos cozinhar e parir, mulheres são novidade. Ainda estamos buscando nosso jeito de trabalhar, de comandar, de usar nossa autonomia.

Certa vez, querendo me elogiar, um crítico escreveu: "(...) é uma excelente escritora, pois, embora sendo mulher, escreve com mão de homem". Isso por si basta para reconhecer a carga de preconceito que sobrevive mesmo entre pessoas com certo preparo, inclusive mulheres, diga-se de passagem, que em geral são os piores juízes de outras mulheres. Se ela faz bem um trabalho (vale para juízas, reitoras, governadoras, vereadoras, motoristas de ônibus, policiais, grandes cirurgiãs etc.), é porque o faz como homem. Quantas gerações terão de passar, para que isso mude?
Esse preconceito é demorado e obstinado, e nós mulheres colaboramos com ele dando nossa melancólica parcela, por exemplo, no jeito como nos portamos, como nos vestimos, como agimos no trivial, ou quando estamos no poder, qualquer poder. Não é por nada que boa parte das propagandas de quaisquer produtos usa mulheres quase nuas ou em trejeitos sensuais: vende, dá ibope, dá vontade de comprar... o que é um modo de poder. Falo com certa frequência na psicóloga que atende seus pacientes de minissaia ou profundos decotes, e digo que, lidando com a alma desses pacientes, a roupa não parece muito adequada. Nada contra a peça de roupa, desde que num corpo adolescente: adolescentes ainda não atendem pessoas com problemas psicológicos.

Enquanto nos portarmos feito crianças pouco inteligentes, ou enquanto nosso maior trunfo forem nádegas firmes, fica difícil reclamar que não nos respeitam o bastante. Estarei dando muito valor a exterioridades como saia, joias, trejeitos? Estou. A aparência é nosso primeiro cartão de visita, dizendo coisas como: eu me acho linda, eu sou sensual, estou consciente disso. 

O segundo cartão é a linguagem: se eu não sei nem articular direito meu pensamento falando ou escrevendo, não vou ser um grande candidato a um emprego razoável, pelo menos um cargo em que eu precise pensar... e falar.

Pais também se queixam de que os filhos não os respeitam. Um bom começo de diálogo é indagar como eles, pais, se portam em casa. Gentis um com o outro, com empregadas, com os filhos - ou a gente acha que dentro da porta de casa, com filhos, vale tudo, até grosseria e falta de compostura? O comportamento das crianças e adolescentes e seus conceitos sobre o mundo (eles os têm desde cedo, não se iludam!) refletem sua casa. Um pouco incômodo: querendo ou não, somos seus primeiros modelos, e eles percebem muito bem o que é natural e o que é fingido em nós.

Isso se estende para a escola, onde professores suportam violência verbal e física, agressividade, má-educação, hostilidade por parte de alguns alunos - não todos, possivelmente nem a maioria. Se pudéssemos pesquisar a vida familiar dessa meninada, com frequência iríamos constatar que ela apenas reproduz ou continua, na rua, no pátio da escola e na sala de aula, o tratamento que predomina em sua casa. Lá, talvez, os filhos não conheçam limites ou, quem sabe, o pai é do tipo que aprecia um coronelismo ultrapassado.

Observo muita gente, e não só jovens, dando de ombros ou rindo ao assistir a uma entrevista de alguns dos nossos líderes (ou escutando belas frases sobre ética): também na vida pública, o respeito tem de ser conquistado e merecido. Sendo humanos, homens, mulheres e crianças, somos ainda animais predadores, querendo ocupar espaço a patadas. Se pudermos, em vez de falar, rosnamos; em lugar de curtir, cuspimos em cima. A gente precisa ser domesticado desde o dia em que nasce.

(Lya Luft)








14 comentários:

Luciana Klopper disse...

Gosto muito de Lya Luft, esse texto ainda nao conhecia, mto certo mesmo!!

Q bom q gostou do meu novo visual 4 olhos rsrsrs

manuel marques disse...

Respeito é bom , eu gosto e é gratuito, não se paga querida amiga.

Excelente texto.

Beijo e bom fds.

Liza Souza disse...

Beth, que lindo texto. Que bom seria se todo mundo soubesse respeitar a si mesmo, os outros e natureza e se o amor nao fosse um sentimento cada vez mais raro de se encontrar.
Beijos

Lúcia Soares disse...

Beth, como concordo com a Lya!
Tenho pra mim a certeza absoluta de que são as famílias mesmo que "fabricam" os monstrinhos do mundo.
Infelizmente, cuidar de vidas não é brincadeira e não deve ser à toa que foi instituido um pai e uma mãe.
As pessoas, parece, perderama civilidade, em nome de uma individualidade que não vai fazê-las mais felizes.
Bj

Isadora disse...

Oi Beth gosto muito da Lya Luft e o texto, sem dúvida, é muito bom.
Concordo com vários pontos abordados no texto e tenho uma teoria - rs, de que nós nos "obrigamos a sermos gentis e educados", pois caso contrário viveríamos em uma praça de guerra.
Mas que basta alguém agir conosco de uma maneira que não gostamos ou concordamos para logo mostramos os dentes e rosnarmos. Infelizmente! Mas é apenas uma teoria.
Um beijinho

Georgia disse...

Beth, que texto lindo e tao bem apropriado para os dias de hoje.

Eu acho que a falta de respeito de hoje em dia vem acompanhado também com a falta de amadurecimento. Nunca vi uma geracao tao infantil como a que está por ai.

Olha, vim te avisar que vocês estao no ar:

http://elasestaolendo.blogspot.com/2010/06/encontro-do-blog-o-que-elas-estao-lendo.html

Beijao

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Adoro o que ela escreve. E esse post é maravilhoso.
Acho que a pior crise que vivemos hj é a de valores. E nisso, entra o respeito e a falta de.

Muito bom

Glorinha L de Lion disse...

Amiga querida, como vc sabe, não sou muito fã da Lya Luft, mas concordo em algumas coisas com essa teoria dela, mas vejo muitas vezes pais carinhosos, bons educadores que tem 2 filhos: um é ótimo, o outro é um monstro...como explicar isso? Educação? Como, se os 2 foram educados pelos mesmos pais e do mesmo modo? Índole? Caráter? Provavelmente...então nem tudo nessa teoria está certo...Quanto à maneira de se vestir inadequada, isso é coisa de brasileiro né? Não se vê isso em outros países...e acho que o contribui pra isso é a visão que as brasileiras tem de si mesmas: mulher objeto, de segunda categoria...burrinhas gostosas, que é o que a mídia veicula por aí, seja em programas humorísticos, seja em propagandas...infelizmente a mulher brasileira engoliu a isca e faz exatamente o que esperam dela...Bem , fiz um testamento...beijos.

Mari disse...

Eu gostei mt da frase final, temos que ser domesticados desde a infância. É isso mesmo!

E enquanto mamães acharem bonitinho as filhas dançarem créu desde pequeninha, como vai ser o futuro das filhas dessas crianças?

ML disse...

Essa mulher é demais, né?

Adorei!

bjnhs

Mila Viegas disse...

Esse texto da Lya é um tapa na cara com luva de pelica. Realmente a gente vive sendo comparada com os homens, como se almejássemos o lugar tão "brilhante" deles. Não é nada disso! Sempre quisemos conquistar o nosso lugar, como mulheres.

beijos

Ana disse...

É que educar filhos dá um trabalhooo!
Melhor passar a bola para creches, babás, televisão, escola...
E, mais tarde, correr atrás do prejuízo! Sempre tem um preço!

Que pena... Não tem nada mais bonito do que ajudar uma criança a entender e respeitar as outras pessoas e o lugar onde vive...

Wilma disse...

Beth do pouco q li da Lia Luft, gostei, mas uma das coisas q me pergunto sempre, é que vejo pais não éticos, beberrões, desreipeitosos com filhos ao contrário, respeitosos e educados e vejo também pais que fizeram tudo pelos seus filhos e eles quando cresceram se tornaram umas drogas de criaturas, drogadoss, perdidos, tenho a impressão q nem tudo depende dos pais, aliás ja li que as cças só absolvem exclusivamente da família valores até os cinco anos, depois é do mundo que os absolvem. É complexo. E concordo com quem disse acima, hoje os jovens e adolescentes em sua maioria são muito superficiais e manipuláveis, custam a crescer e amadurecer, apesar de tanta informação.

Daniele disse...

OI web-mãe, tudo bem?
Muitas brasileiras criticam a forma como as escolas daqui educam ou melhor contribuem com a educação dos filhos delas.. as reclamações são que as escolas são rígidas com as crianças, mas acredito que o respeito e os valores tem que ser passado aos pequeninos desde bem cedo, e é coisa séria...
Outro dia conversando com uma colega de trabalho, comentei que concordo com a postura das escolas, pois é só olhar os cidadões de hj, o respeito pelas coisas alheias, a educação... enfim.
bjuss