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sexta-feira, 12 de março de 2010

Education, education, education!




Valeu pessoal!  Valeu pela participação e endosso às palavras do meu último post. Pelo visto, muitos estão com este sentimento que acaba deixando a gente às vezes meio amargo e desiludido.

É certo que o país evoluiu economicamente nos últimos anos, todas as faixas de D a A tiveram um incremento substancial de renda e isso se comprova com as altas taxas de vendas de automóveis, eletrodomésticos, construção civil e, principalmente pelas linhas de crédito, onde por exemplo, pode-se comprar um carro por 70 meses, o que denota segurança e estabilidade econômica.

Agora, a cultura e civilidade não acompanharam, nem de perto, esta alta taxa de riqueza.  Tanto as pessoas mais humildes que têm acesso ao que nunca tiveram quanto aos de classe média com seus carrões importados, continuam agindo de forma primitiva.  Vemos a arrogância e deselegância desses novos ricos, tanto do cidadão médio quanto do pobre, pois estes também ao verem o topo da pirâmide com ausência de ética, acham que podem tudo.  Assim, as convivências nas cidades têm piorado exatamente por este sentimento coletivo. E aí quem enxerga esta situação se frustra.

Mas, acredito ainda que isso terá uma saída pro futuro.  Quem sabe um dia teremos um Tony Blair, não que fosse perfeito, vide o caso do Iraque em seu envolvimento não adequado com o Bush, porém no quesito cultura, em seus discursos sempre enfatizava que o que o povo inglês cada vez mais precisava era Education, Education, Education.

E pra terminar, não querendo ser redundante, deixo apenas mais um texto fantástico que o incrível Zuenir Ventura, escritor, jornalista e dos melhores intelectuais de nossa época, define com detalhes o Brasil e seu povo, numa descrição atemporal, já que foi escrito em 2000, mas parece que é hoje.

Experimentem ler em voz alta, dando os tempos de vírgulas e parágrafos, sentirão melhor as palavras. 


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Un pays ordinaire de légendesLibération (Paris), 18/4/00


Há uma pergunta clássica que não só os brasileiros vivem se fazendo, mas também os estrangeiros: que país é esse no qual convivem tantas contradições e que parece se divertir em ser irredutível às classificações e rebelde às previsões? Um francês, Roger Bastide, chamou-o de “país dos contrastes”, mas é possível que seja mais do que isso, que seja o país da ambigüidade.Vai ver que não foi por acaso que “inventamos” o mulato, nosso jeitinho contra a polarização, síntese literal e metafórica do homem brasileiro. Para o antropólogo Roberto DaMatta, o mulato é a ilustração da tese de que o Brasil, ao contrário dos EUA e da África do Sul, gosta do intermediário, do meio-termo, do ambivalente e ambíguo.
Os jornalistas estrangeiros nos perguntam muito: “o Brasil é cordial ou violento? Se é cordial, como se explica tanta violência? Se é violento, por que as pessoas têm tanta joie de vivre, como se pode observar andando pelas ruas?” A única certeza é que não se consegue entendê-lo com olhos maniqueístas ou mesmo cartesianos. O Brasil nunca é uma coisa ou outra, mas as duas. Não é isso ou aquilo, mas isso e aquilo.
Complexo e meio imprevisível, ao mesmo tempo cordial e violento, generoso e mesquinho, honesto e corrupto, operoso e preguiçoso, egoísta e solidário, o povo brasileiro a toda hora desmente o que se diz dele, a favor ou contra. Em 1869, o Conde de Gobineau fez uma profecia. Cônsul da França no Rio, amigo e interlocutor do Imperador Pedro II, ele ficou mal impressionado com a nossa mistura de raças, cores e etnias, e garantiu que, como povo, o Brasil não duraria 200 anos.
Quando há uns dois anos Bill Clinton esteve no Brasil, um de seus diplomatas se referiu à nossa “corrupção endêmica”. No dia seguinte, o presidente do Supremo Tribunal Federal, o presidente do Senado, uma diretora da escola-de-samba da Mangueira e todas as facções políticas do país se uniram numa onda de revolta patriótica que só cessou com um pedido de desculpas. Aí aconteceu o inverso: desmontada a arrogância imperial americana, passou-se da indignação ao carinho e o presidente americano foi coberto de afeto.
Somos assim, cheios de altos e baixos: mudamos facilmente de humor e de opinião, passamos rapidamente de um extremo a outro. Dependendo da cotação de nossa auto-estima, ou somos os melhores ou somos os piores do mundo. Basta lembrar a última Copa do Mundo: o segundo lugar nos humilhou. Ou somos o primeiro ou não somos nada. Um dos explicadores de Brasil chegou a escrever, imaginem, que a tristeza é a nossa característica. “Numa terra radiosa vive um povo triste”, ele disse. Só é, se o observamos numa fila de hospital, espremido num ônibus, pingente de um trem, vendo a corrupção de sua elite, os escândalos. Mas experimente observá-lo numa festa coletiva, na alegria de uma comunhão de massa, num momento de celebração - no carnaval, ou numa festa de réveillon de Iemanjá.
Diz-se também que o povo brasileiro é omisso, não cumpre suas obrigações cívicas. No dia-a-dia, de fato, nem sempre servimos de exemplo para a civilidade e a cidadania. Mas também vivemos num cotidiano iníquo de violência e miséria. Em compensação, foi esse mesmo povo que levou o país a tomar posição contra o nazi-fascismo na Segunda Guerra, que saiu às ruas para derrubar as ditaduras do Estado Novo e a dos militares, que fez campanha pela anistia, pela volta dos exilados, pela redemocratização e que sobretudo provocou o impeachment de um presidente corrupto no começo dos anos 90. E isso sem sangue e sem violência.
Acho que o Brasil é um laboratório, no sentido de lugar ou espaço onde se fazem experiências em geral, boas ou más - um rico laboratório do ponto de vista racial, social e cultural. Ele é um laboratório de miscigenção, de multiculturalismo, de música, de cinema, de arquitetura e, claro, de futebol.
É curioso como o país nasceu com essa sina. Não é só uma vocação que ele tem, mas que lhe atribuem. Os primeiros textos, as impressões iniciais dos viajantes foram sempre de êxtase e encantamento. Os europeus achavam que se estava experimentando aqui algo de extraordinário: aqui era o laboratório de um novo homem.

Antes do descobrimento, antes da observação direta, a imaginação e a fantasia da velha Europa haviam povoado estas nossas terras com monstros e seres fantásticos, amazonas e animais descomunais. O primeiro choque foi o da normalidade: os descobridores se espantaram porque encontraram homens comuns e criaturas normais.

500 anos depois, o melhor é ainda deixar de lado os mitos de exaltação e os mitos de depreciação e admitir que nem sempre o país corresponde à imagem que se faz dele lá fora: às vezes é pior e às vezes, melhor. É um país comum, mas complexo. Para entender esse laboratório, o mais prudente é aceitar o conselho do grande maestro Tom Jobim, que dizia: “o Brasil não é um país para principiantes”.

14 comentários:

Flávia Fayet disse...

Beth! Mtoooo obrigada pelas lindas palavras no meu post sobre o rim! Vc é sempre tão carinhosa e amável, não é atoa q tenho enorme carinho por vc e estou sempre t desejando coisas boas... Beijão e um lindo fim de semana

Luciana Klopper disse...

Chega a doer, mas é verdade

rocosta disse...

Uau! Texto maravilhoso e verdadeiro.
Li uma entrevista de um fotógrafo suíço que fez uma exposição em Zurique sobre o Brasil e ele disse: 'Brasil: ou voce ama ou voce odeia; não tem nada no meio e eu amo.'
Beijao!

p.s.: vou levar esse texto para mim, posso?

Dani dutch disse...

OLá web-mãe, passei pra desejar um excelente fim de semana.
Bjuss

Glorinha L de Lion disse...

Oi amiga querida!
Hoje sou a primeira! Texto esplêndido...apesar do Zuenir ser um daqueles que ganhou um ressarcimento do governo de acho, 1 milhão por causa da ditadura...coisa do Brasil...terra de contrastes, país de extremos, Belíndia, o Brasil tem muitos nomes, muitas explicações, muitas desculpas, temos pena de nós mesmos, temos culpa, somos vítimas...Peraí! Quando é que isso tudo vai dar lugar à AÇÃO????
Quem tem blog, que escreva, quem tem consciência que reclame com os meios de comunicação...é muito bonito esses textos e textos falando de como somos multirraciais, criativos, simpáticos, receptivos e coitadinhos que aceitam tudo de cabeça baixa...Está na hora de reagirmos, mandar cartas aos jornais, usar os meios, pacíficos, de que dispomos...não é só por direito, é por DEVER! Somos o 1% que pode transformar o país numa país decente...demra? Claro que vai demoara, mas se não começarmos logo, vai demorar mais ainda! Vamos, à luta!
Beijos amiga querida...ainda bem que vc está indo...

Fernanda França disse...

Ué, comentei aqui, não apareceu?? Buaaaaaaaa

Fernanda França disse...

Minha querida, hoje vou comentar geral, de todos os posts: seu blog está lindo, profundo e muito bacana e gostoso de ler. Beijos, Fê.

aminhapele disse...

Grande texto de Zuenir.
Ele responde às suas questões.
Duvido que Zuenir apreciasse ter um Blair por perto...
Acredito que Lula é mais eficaz.
A dimensão e a credibilidade do Brasil,hoje,são imensas.
Passou de um país emergente para uma grande potência.
Claro que as desigualdades vão continuar,tal como nos States.
Mas é esse caldo de raças e culturas,cimentado no seu patriotismo,com visão alegre e prá frente que faz do Brasil uma referência.
Por vezes,creio que sou mal interpretado quando me refiro a Lula.Em minha opinião,Lula surpreendeu tudo e todos quando,com o seu jeito de menino sem berço,entendeu as prioridades e ultrapassou todos as previsões.
A partir daí,esqueceu-se esse grande feito,e passou a discutir-se fait-divers:a maneira de falar,o mau gosto para vestir,o número de cachaças que bebe,etc.
Antes dele,qual era a credibilidade do Brasil no Mundo(extra-futebol)?!
Um abraço.

Ana Paula Soldi disse...

Beth, disse tudo nesse texto, eu percebi isso na minha viagem ao Brasil, realmente acho que está faltando mais cultura, será que tem geito de mudar isso, difícil.

beijos

Dani dutch disse...

OI WEb-mãe, é incrivel, mas está impregnado por todos os cantos.
Nas escolas mesmo sem aprender nada, os estudantes são passados para os anos de classe seguintes, e isso vai virando uma bola de neve. Perdem o interesse em estudar e param por aí mesmo.
E todos nós sabemos que a mudança será a longo prazo, se começar agora por exemplo o reflexo será visto daqui uns 10 anos, mas o problema é que as vezes não vejo luz no fim do tunel.
bjus e bom domingo

ML disse...

E outro presidente francês de Gaulle - disse: "este não é um país sério".

Concordo com ele, Beth.

bjnhs e uma ótima semana.

ML disse...

Brasil: cordial, mas desonesto.

Gente fina, amigo até segunda ordem.

Difícil confiar - tem o governo que merece.

Não à toa mantem o "pueblo" na linha da ignorância.

Dand0-lhe "panes et circenses".

Isso aqui é uma bagunça, minha gente!

bjnhs sinceros, juro ;>)

Beth/Lilás disse...

GENTE, gostaria de acrescentar para complementar, este texto que recebi de uma amiga por email:

*Tema:_'Como vencer a pobreza e a desigualdade'_*
> *Por Clarice Zeitel Vianna Silva*
> *UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro
> - RJ*
> *
> *
> *'PÁTRIA MADRASTA VIL'
> Onde já se viu tanto excesso de falta? Abundância de
> inexistência. .. Exagero de escassez.... Contraditórios? ? Então
> aí está! O novo nome do nosso país! Não pode haver sinônimo
> melhor para BRASIL.
> Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de
> caráter, a abundância de inexistência de solidariedade, o
> exagero de escassez de responsabilidade.
> O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada - e
> friamente sistematizada - de contradições.
> Há quem diga que 'dos filhos deste solo és mãe gentil.', mas eu
> digo que não é gentil e, muito menos, mãe. Pela definição que eu
> conheço de MÃE, o Brasil está mais para madrasta vil.
> A minha mãe não 'tapa o sol com a peneira'. Não me daria, por
> exemplo, um lugar na universidade sem ter-me dado uma bela
> formação básica.
> E mesmo há 200 anos atrás não me aboliria da escravidão se
> soubesse que me restaria a liberdade apenas para morrer de fome.
> Porque a minha mãe não iria querer me enganar, iludir. Ela me
> daria um verdadeiro Pacote que fosse efetivo na resolução do
> problema, e que contivesse educação + liberdade + igualdade. Ela
> sabe que de nada me adianta ter educação pela metade, ou tê-la
> aprisionada pela falta de oportunidade, pela falta de escolha,
> acorrentada pela minha voz-nada-ativa. A minha mãe sabe que eu
> só vou crescer se a minha educação gerar liberdade e esta, por
> fim, igualdade. Uma segue a outra... Sem nenhuma contradição!
> É disso que o Brasil precisa: mudanças estruturais,
> revolucionárias, que quebrem esse sistema-esquema social
> montado; mudanças que não sejam hipócritas, mudanças que
> transformem!
> A mudança que nada muda é só mais uma contradição. Os
> governantes (às vezes) dão uns peixinhos, mas não ensinam a
> pescar. E a educação libertadora entra aí. O povo está tão
> paralisado pela ignorância que não sabe a que tem direito. Não
> aprendeu o que é ser cidadão.
> Porém, ainda nos falta um fator fundamental para o alcance da
> igualdade: nossa participação efetiva; as mudanças dentro do
> corpo burocrático do Estado não modificam a estrutura. As
> classes média e alta - tão confortavelmente situadas na pirâmide
> social - terão que fazer mais do que reclamar (o que só serve
> mesmo para aliviar nossa culpa)... Mas estão elas preparadas
> para isso?
> Eu acredito profundamente que só uma revolução estrutural, feita
> de dentro pra fora e que não exclua nada nem ninguém de seus
> efeitos, possa acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil.

Beth/Lilás disse...

Afinal, de que serve um governo que não administra? De que serve
> uma mãe que não afaga? E, finalmente, de que serve um Homem que
> não se posiciona?
> Talvez o sentido de nossa própria existência esteja ligado,
> justamente, a um posicionamento perante o mundo como um todo.
> Sem egoísmo. Cada um por todos.
> Algumas perguntas, quando auto-indagadas, se tornam
> elucidativas. Pergunte-se: quero ser pobre no Brasil? Filho de
> uma mãe gentil ou de uma madrasta vil? Ser tratado como cidadão
> ou excluído? Como gente... Ou como bicho?*
>
> *
>
> **Premiada pela UNESCO, Clarice Zeitel, de 26 anos**, estudante
> que termina faculdade de direito da UFRJ em julho, concorreu com
> outros 50 mil estudantes universitários.
> Ela acaba de voltar de Paris, onde recebeu um prêmio da
> Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a
> Cultura (UNESCO) por uma redação sobre 'Como vencer a pobreza e
> a desigualdade'
>
> A redação de Clarice intitulada `Pátria Madrasta Vil´ foi
> incluída num livro, com outros cem textos selecionados no
> concurso. A publicação está disponível no site da Biblioteca
> Virtual da UNESCO.*