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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Como calar uma blogueira ... em Cuba.



No ano passado falei aqui neste post sobre Yoani Sanchez. Não só a apresentei, como intercedi por ela, por julgar que uma pessoa, mulher como eu, frágil em sua aparência, moradora do último país que ainda não acordou para a democracia e que subjuga seu povo e humilha pessoas como ela, criativa e inteligente e que corajosamente, através de um blog, ferramenta simples e ao mesmo tempo poderosa que nós também usamos, narra o dia a dia na ilha de Cuba, reduto do imortal Fidel Castro e perpetuada na truculência por seu irmão, não menos impiedoso Raúl Castro.

E volto a falar dela, depois da reportagem que a Revista Veja mostrou nesta última edição e que me chocou enormemente, pois a mesma encontra-se de muletas e com o rosto completamente inchado e vermelho, devido ao sequestro e uma covarde surra que a polícia cubana lhe aplicou no dia em que a comemoração da derrubada do Muro de Berlim era celebrada em todo o mundo.

(Yoani Sánchez, em casa, depois de ser agredida: “Durante vinte minutos, nos espancaram sem parar”)

Precisamos divulgar este fato tenebroso, não só pela truculência desses homens violentos, mas pelo direito que ela, Yoani, tem como todos nós, de andar livremente pela Web e se expressar, contar ao mundo como é viver dentro daquele sistema e acima de tudo porque a matéria-prima do seu trabalho é a realidade cubana e que não faz mais sentido ser escondida do resto do mundo. Tolerância e liberdade parecem palavras inexistentes naquela ilha dos Castro.

Abaixo a reportagem da Revista Veja:

“Não era uma sexta-feira qualquer. As comemorações do vigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim se aproximavam e um grupo de jovens artistas cubanos planejava uma passeata contra a violência naquele dia. A tarde era cinza em uma cidade onde quase sempre brilha um sol inclemente, que nos faz caminhar colados às paredes para nos beneficiarmos da sombra. Estavam comigo Claudia Cadelo e Orlando Luís Pardo, dois autores de blogs que recebem milhares de visitas a cada semana. Enquanto andávamos, contei a eles sobre uma desconhecida que, dias antes, havia se aproximado e me perguntado: “Você não tem medo?”, em referência, claro, ao fato de que digo livremente minhas opiniões em um país onde o governo detém o monopólio da verdade. Meus amigos sorriram quando narrei a eles a resposta que dei à transeunte angustiada: “Meu maior temor é ter de viver com medo”. Não imaginava que em poucos minutos eu viveria o terror de um sequestro e enxergaria o rosto da impunidade policial em sua forma mais dura.
Eu caminhava pela Avenida dos Presidentes, em Havana, com a intenção de participar da demonstração pacifista convocada pelos jovens. À altura da Rua 29, a uns 300 metros de onde estavam os manifestantes, um carro da marca Geely, de fabricação chinesa, cor preta e placa amarela, de uso privado, parou diante de nós. Três homens em trajes civis nos mandaram entrar no automóvel. Não se identificaram nem mostraram um mandado de prisão. Eu me recusei a obedecer. Disse que, como não tinham ordem judicial, seria um sequestro. Depois de uma breve discussão, um deles chamou alguém pelo celular, pedindo orientações. Imediatamente, os três começaram a nos tratar com violência para que entrássemos no carro. Enquanto nos empurravam, os homens do automóvel negro usaram o celular outra vez e uma viatura da polícia se aproximou. Pensei que os policiais nos salvariam. Pedi ajuda a eles, explicando que estávamos sendo atacados por supostos sequestradores. Os homens que estavam à paisana então deram ordens aos policiais para levar Claudia Cadelo e outra amiga que estava conosco. Eles obedeceram e ignoraram o pedido de ajuda que eu e Orlando fazíamos. As pessoas que observavam a cena foram impedidas de prestar ajuda, com uma frase que resumia todo o pano de fundo ideológico da cena: “Não se metam. Eles são contrarrevolucionários”. Fazendo uso de toda a força física e de um evidente conhecimento de artes marciais para nos dominar, obrigaram-nos a entrar no carro. Comigo empregaram especial violência, enfiando-me de cabeça para baixo e me mantendo imobilizada com um joelho sobre o peito.
Dentro do veículo e durante cerca vinte minutos, os sequestradores nos espancararam sem parar. Frases de mau presságio saíam da boca daqueles três profissionais da intimidação: “Yoani, isso é o seu fim”, “Você não vai mais fazer palhaçadas”, ou “Acabou a brincadeira”. Achei que não sairia viva. Tentei escapar pela porta, mas não havia maçaneta para acionar. A certa altura, o carro parou. Eu já tinha perdido a noção do tempo. Do lado de fora, caía a noite. Finalmente, ambos fomos jogados em plena via pública, longe do lugar onde se realizava a passeata contra a violência.
Por causa dos golpes desferidos por esses profissionais da repressão, estou com a face esquerda inflamada. Tenho contusões na cabeça, nas pernas, nos glúteos e nos braços, além de uma forte dor na coluna, que me obriga a caminhar com muletas. Na noite de 7 de novembro, um sábado, fiz uma consulta médica, mas não quiseram redigir um exame de corpo de delito sobre os maus-tratos físicos. A médica teve de me atender na presença de um funcionário que estava ali apenas para me vigiar. Uma radiografia mostrou que não havia traumas internos, apesar dos sinais exteriores das pancadas. Recebi apenas algumas recomendações para minha recuperação.
Eu já me sinto fisicamente melhor e desde sexta-feira tenho uma ideia constante. As autoridades cubanas acabam de compreender que, para silenciar uma blogueira, não podem usar os mesmos métodos com os quais conseguiram calar tantos jornalistas. Ninguém pode despedir os impertinentes da web nem lhes prometer umas semanas na Praia de Varadero ou presenteá-los com um Lada. Muito menos podem ser cooptados com uma viagem para o Leste Europeu. Para calar um blogueiro, é preciso eliminá-lo ou intimidá-lo. Essa equação já começou a ser entendida pelo estado, pelo partido e pelo general.”
(VEJA – 18/11/2009)





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15 comentários:

Sonia H. disse...

Estou chocada, Beth! Que absurdo!
Meu Deus... Essa covardia precisa ser divulgada.
Sem palavras. A blogosfera precia agir!
Bjs,

Elaine Maria disse...

Olá Beth! Menina, desde que li nas páginas amarelas da Veja de algumas semanas atrás, acompanho todo dia o blog da Yoani, e a cada dia me assusto mais. É revoltante.
Beijo e boa semana.

aminhapele disse...

Tenho acompanhado o blogue de Yoani.
Não tenho qualquer simpatia com o regime cubano.
Mas,mantenho muitas reservas sobre aquele "sítio".
Custa-me a acreditar que,com os textos da própria Yoani,com o "tal" regime castrista,aquele blogue(referência de audiências mundiais),numa pequena ilha,com as dificuldades que ela própria descreve de acesso à net,a "voz" não tenha sido silenciada há muito.
Imagina um blogue semelhante na China ou na Arábia Saudita?!
Mantenho reservas...

ML disse...

Sabe o que mais me irrita?
Não é ignorante usando camisa com imagem de Che Guevara ou dizendo que em Cuba "todo o mundo é igual".
Ignorante segue o termo à risca.
O problema maior é um bando de intelectuais terem vendido um produto enganoso, de maquiagem fake aos... ignorantes.
A pobreza aqui é mais nobre: ela não finge, ao menos, que não existe.

bjnhs e PARABÉNS pelo alerta.

Beth/Lilás disse...

Caro Rui,
Também já tive esta dúvida, mas repare em alguns de seus posts, na parte debaixo, onde ela coloca que foi postado através de telefone, portanto acho que existe uma aparente saída. E seu blog só pode ser acessado fora da ilha, pois foi bloqueado pelo governo cubano.
Com certeza ela tem muitos amigos e contatos com sua senha e que a ajudam na postagem diária.
Ela foi convidada a falar no Senado do Brasil, mas os trâmites burocráticos são tantos que ela desistiu e por isso deu uma entrevista em outubro à Veja pelo celular.
Veja aqui:

http://veja.abril.com.br/071009/tres-mentiras-cuba-p-19.shtml

abraço

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ML,
Também concordo contigo e apesar de admirar Chico Buarque, por exemplo, nunca me esqueço sua afeição por Fidel e aquele regime.
Como disse Yoani em entrevista "Convido quem vê Cuba como um exemplo a vir para cá, sentir na pele como vivemos."

beijão

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aminhapele disse...

Gosto do que leio no "Y".
Mas,parecem-me facilidades a mais em tal regime.
Claro que,quanto à Revolução Cubana,todos os da minha geração a aplaudiram e tomaram como exemplo a seguir.
Eu próprio,também usei a minha boina à Che!E não me arrependo disso.
Mas as postagens de Yoani,diárias e críticas ao regime,não são feitas por celular.
Um regime,como ela descreve,há muito que tinha feito desaparecer o blogue.
Daí,as minhas reservas.

Dani dutch disse...

OI Beth, tudo bem?
Beth tenho muito assunto pra contar em relação ao seu post, já trabalhei com pessoas ligadas a isso, mas vou fazer minha aula de carro e quando voltar volto aqui de novo.
bjusss

Luciana Håland disse...

Um horror isso.
Vou ver se consigo acessar o blog dela pra conhecer.
Beijo

Heloísa disse...

Beth,
Que situação absurda. Qualquer repressão à liberdade, é intolerável.
Beijos.

Lu Souza Brito disse...

Nossa Beth, como todas as outras pessoas estou chocada com isso. Indignada. É inadimissível que atos como este aconteça nos dias de hoje. Se bem que se tratando do regime cubano, há de se esperar tudo né?
Vamos divulgar sim!
Beijos

Lúcia Soares disse...

Beth, toda forma de censura é horrível. Nunca acessei o blog dessa moça porque realmente não me interessei, fiquei "com preguiça" de ler em outra língua. O que sempre tive reservas é o fato dela postar, justamente, sem repressão nenhuma...Acho muito estranho.
Sou amiga de uma pessoa cuja filha se casou, dia 27/09 com um cubano. Eles se conheceram aqui em Belo Horizonte, onde ele veio fazer um doutorado e ela fazia também. Depois ele voltou a Cuba, trabalhou lá por uns tempos,pra "pagar" esse curs feito no Brasil e agora veio definitivamente.Vou ver se consigo conversar com ele sobre essa Cuba tão detestada. Deve ser uma vida muito difícil por lá.
De todo modo, ninguém pode ser impunemente agredido. Muito menos uma mulher. Tomara que o assunto se espalhe pelo mundo e ela seja justiçada. Amor demais é isso: alguns conseguem dar até a vida.
Eu já teria saido de lá há tempos.
Ou não, né? Bj

gabriela disse...

Amiga como estás?
Que barbaridade isso que fizeram com essa Sra se o Fidel não era bom o irmão não lhe fica atrás, a minha filha já foi a Cuba e adorou e ficou a conhecer um casal onde levavam muitas coisas para os filhos, inclusive até dinheiro lhes deu quem os referenciou foi uma médica amiga daSARA essa amiga foi lá á 15 diase foi carregada com muito material escolar escovas de dentes e pasta de dentes muita roupa eu também colaborei, mas fiquei triste algumas das malas foram abertas lá e roubaram muitas coisas, também a Matilde colaborou com alguns brinquedos dela para os meninos que não têm imagina que esse casal pediu esfregões para lavar a loiça, eu confesso é um país que gostaria muito de visitar , talvez em breve.
Viva a liberdade
Amiga muitos beijinhos

Liza Souza disse...

Nao dá para acreditar que isso realmente aconteca, né? Vivendo num país democratico, para muitos até parece ficcao cientifica. Um absurdo e que mais uma vez me faz perceber o quanto o ser humano pode ser maldoso.
Uma pena que exista pessoas tao ruins espalhadas pelo mundo.
Beijos

Silvia Masc disse...

De fato Beth, é revoltante, o ano passado inclusive, ela ganhou um prêmio importante como blogueira, e foi impedida de recebe-lo. Uma covardia o que fizeram com ela.Eu havia lido na Veja tb. muito bacana a sua idéia de postar.
beijinho

Ciça Donner disse...

Ai mana, e tu sabes o que é pior? Os gringos daqui estao em um furor por Cuba e nao devem ter nocao dessas atrocidades acontecidas na lá!