.....................................................................................................................................................................Porque não só vives no mundo, mas o mundo vive em ti. .....................................................................................................

domingo, 29 de março de 2009

Leitura interessante


(Google imagem)


Gosto muito de ler a última página da Veja, aliás esta revista não é mais a mesma de tempos atrás, mas sempre tem um texto interessante e inteligente de algum bom jornalista.

O desta semana é de Roberto Pompeu de Toledo e fala exatamente aquilo que vivenciamos no nosso dia a dia brasileiro. Não sei se é assim também lá fora, os amigos distantes poderão tirar essa dúvida com seus comentários de como é no país em que moram.



Palavras que ferem, palavras que salvam

"Posso ajudar?" Eis duas palavrinhas que nos soam mais que familiares. Entra-se numa loja e lá vem: "Posso ajudar?" Está desencadeado um processo durante o qual não mais conseguiremos nos livrar da prestimosa ofeRta. Ao entrar numa loja, o ser humano necessita de um tempo de contemplação. Precisa se acostumar ao novo ambiente, testar a nova luminosidade, respirar com calma o novo ar. Sobretudo, necessita de solidão para, por meio de um diálogo consigo mesmo, distinguir entre os objetos expostos aquele que mais de perto fala à sua necessidade, ao seu gosto ou ao seu desejo. A turma do 'posso ajudar' não deixa. Mesmo que se diga "Não, obrigado; primeiro quero examinar o que há na loja", ela só aparentemente entregará os pontos. Ficará por perto, olhando de esguelha, como policial desconfiado.


Onde a situação atinge proporção mais dramática é nas livrarias. Livraria é por excelência lugar que convida ao exame solitário das mesas e das prateleiras. É lugar para passar lentamente os olhos sobre as capas, apanhar e sentir nas mãos um ou outro volume, abrir um ou outro para testar um parágrafo. Um jornal certa vez avaliou como critério de qualidade das livrarias a rapidez com que o atendente se apresentava ao freguês. Clamoroso equívoco. Boa é a livraria em que o atendente só se apresenta quando o freguês o convoca. As melhores, sabiamente, dispensam o 'posso ajudar'. As mais mal administradas, desconhecedoras da natureza de seu ramo de negócio, insistem nele.
Ainda se fossem outras as palavrinhas -"Posso servi-lo? Precisa de alguma informação?" Não; o escolhido é o 'posso ajudar', traduzido direto do jargão dos atendentes americanos ("May I help you?").

A má tradução das expressões comerciais americanas já cometeu uma devastação no idioma ao propagar o doentio surto de gerúndios ("Vou estar providenciando", "Posso estar examinando") que, do telemarketing, contaminou outros setores da linguagem corrente. O 'posso ajudar' é caso parecido. Tal qual soa em português, mais merecia respostas como "Pode, sim. Meu carro está com o pneu furado. Você pode trocá-lo?", ou: "está quase na hora de buscar meu filho na escola. Você faz isso por mim? Assim me dedico às compras com mais sossego."
Pode haver algo mais irritante do que o 'posso ajudar'? Pode. É o "é só aguardar". Este é próprio dos lugares em que se é obrigado a esperar para ser atendido -o banco, o INSS, o hospital, o cartório, o Detran, a delegacia da Polícia Federal em que se vai buscar o passaporte. Ou bem há uma mocinha distribuindo senhas ou um mocinho organizando a fila. Chega-se, a mocinha dá a senha, o mocinho aponta o lugar na fila, e tanto a mocinha quanto o mocinho dirão em seguida: "Agora é só aguardar". Só? Só mesmo? O que vocês estão dizendo é que o mais difícil, que foi apanhar essa senha ou ouvir a instrução sobre em qual fila entrar _ ações que não me custaram mais que alguns segundos _, já passou? Agora é só gozar as delícias desta sala de espera, mais apinhada do que a Faixa de Gaza? Ou apreciar as maravilhas desta fila, comprida como a Muralha da China? Um traço característico da turma do "é só aguardar" é que ela nunca cometerá a descortesia de dizer "é só esperar". Seus chefes lhes ensinaram que é mais delicado, menos penoso, "aguardar" do que "esperar".

É um pouco como quando se diz que fulano 'faleceu', em vez de dizer que 'morreu'.
A crença geral é que quem falece morre menos do que quem morre. No mínimo, morre de modo menos drástico e acachapante.


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7 comentários:

Lúcia Soares disse...

Sabe aqueles textos que você lê e se ouve falando? É este. Deveria ter sido escrito por mim. Penso exatamente assim. Ô saco, entrar numa loja e ouvir esse "Posso ajudar"?! Dá vontade de dar meia volta e sair correndo.
Mas o contrário também acontece: às vezes precisamos mesmo de ajuda e...ninguém aparece!!! Rsrsrsrsr

mônica lidizzia disse...

Pior do que perguntar se pode ajudar, é a tentativa de ser íntima (qual é seu nome?).
E o está procurando alguma coisa especial? É muito chato!
E quando os vendedores vem buscar o cliente na vitrine? É super chato!

bjnhs e bom domingo

aminhapele disse...

Gostei do texto e é oportuno.
São ajudas para "embaraçar e condicionar".
Numa livraria,mantenho um tique de muitos anos:geralmente,sei o livro que procuro.Mas gosto de o folhear e de CHEIRAR O PAPEL!
Cada um,com as suas manias...
Um abraço.

Luciana Håland disse...

Aqui é bem mais tranquilo, primeiro que as(os) vendedores não ganham comissão, então já evita que eles tentem enfiar alguma mercadoria nossa goela abaixo.
Quando a gente entra na loja fica à vontade, depois o(a) vendedor(a) vai onde a gente tá e pergunta se queremos ajuda, mas não fica em cima, se a gente diz não ele(a) sai de perto e nos deixa circular a vontade.
Detesto esse esquema que é usado no Brasil.
Beijo

Cecília disse...

Muito bom o texto!!!
'Posso ajudar?' esta em falta...
Mas é muito bom quando conseguimos ajudar alguém, faz bem ao ajudado e a quem ajuda.

Tenha uma ótima semana!
Beios

Lu Olhosde Mar disse...

querida, vá com Deus, aproveite TUDO que Ele te proporcionar. um beijo, sem medo! :D

Mila Viegas disse...

Por isso eu prefiro mil vezes entrar em lojas que sei que nenhum vendedor irá me incomodar com perguntas. Só entro em lojas menores quando sei o que quero comprar e posso responder prontamente ao vendedor quando ele me pergunta se eu preciso de ajuda.
Isso realmente inibe o cliente. Mas entendo que são treinados para isso e faz parte da política da loja, embora não seja nada simpático como se faz parecer. Eu gosto de tempo para pensar, gosto de me visualizar em uma roupa, por exemplo, antes de decidir se vale a pena a compra.
Acho que pior do que isso é quando você está meramente olhando a vitrine e vem alguém lá de dentro da loja e te pega no corredor para explicar as formas de pagamento e os descontos, sem você ao menos ter interesse em saber destas informações. Eu fico intimidada.

beijocas