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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

E vamos lá!



A nefasta 'crise econômica mundial' não é uma utopia, pois já estamos sentindo os reflexos, quase todos os dias, através dos noticiários. Muitas empresas fechando, demissões em massa, vendas de carros e imóveis com um impacto significativo no crescimento econômico em geral.

Nosso governo insiste em dizer, como sempre, que é mentira da oposição para derrubar suas estruturas. "Está tudo bem! É só uma marolinha!" Então, tá! Mas, já conheço pelo menos duas pessoas que perderam seus empregos atualmente. Como a época ainda é de festa - carnaval - e a gente sabe que este país só começa a 'raciocinar' depois dele, vamos esperar para ver o que, de fato, será que vai rolar.

Me preocupa muito saber que tanta gente vai sofrer com isso, que várias famílias serão afetadas enormemente, que as crianças serão atingidas em seus ensinos e que um 'chefe de família' poderá ficar angustiado ou depressivo.

Vejam o que
afirma Contardo Calligaris, psicanalista e colunista da Folha de S.Paulo, na crônica "Desemprego", selecionada para o livro "Quinta Coluna":

"

Estou lendo um livro recente, que trata dos efeitos das adversidades externas sobre nossa saúde mental, Adversity, Stress and Psychopathology [Adversidade, Estresse e Psicopatologia], de Bruce Dohrenwend (organizador). A perda do emprego está na lista dos piores fatores adversos, com as catástrofes naturais, a morte de uma pessoa amada, o estupro, a doença grave, a separação ou o divórcio.

Nenhuma novidade nisso: é fácil entender que a perda do emprego seja fonte de angústia, de depressão e mesmo, às vezes, de "comportamentos anti-sociais": alcoolismo, violência familiar e condutas criminosas. Compreendemos imediatamente, por exemplo, o desespero do provedor (ou da provedora) que não consegue preencher as expectativas de seus dependentes. "Se a família não pode mais contar comigo, perco minha razão de ser."

Mas há algo mais, que talvez faça do desemprego a adversidade mais danosa para nossa saúde mental. Preste atenção: no balcão de um boteco, como na mesa de um jantar, se seus vizinhos forem desconhecidos, a primeira pergunta não será "quem é você?", mas "o que você faz na vida?". Se eles tiverem uma intenção alegre, talvez tentem primeiro descobrir seu estado civil. Fora isso, o interesse pela sua identidade se apresentará como interesse por seu papel produtivo.

Ora, tanto você como seu vizinho (ou vizinha) viverão essa conversa inicial como um momento, de alguma forma, falso. Pois todos sabemos que somos mais do que nosso ofício: temos histórias, amores, esperanças, interesses, paixões e crenças que, de fato, expressariam muito melhor quem somos. Ao trocarmos cartões de visita, mentimos por omissão. Identifico-me como executivo, bancária, escritor, médica, mecânico, mas quem sou eu? A poeta da meia-noite? O sedutor das salas de bate-papo na internet? O piadista do bar da esquina? O pai preocupado com a doença do filho? A mulher que, a caminho do escritório, se agacha e conversa com o sem-teto que vive na calçada? O homem que cantarola Dorival Caymmi tomando banho?

Não é o caso de sermos nostálgicos. Num passado não muito remoto, cada um era definido por sua proveniência, e as perguntas iniciais diziam: quem foram seus pais e antepassados? Onde você nasceu? Quais são as dívidas que você herdou?

Prefiro os dias de hoje, em que são nossas próprias façanhas que nos definem. É uma escolha que deveria nos deixar mais livres, mas acontece que a praticamos de um jeito estranho: junto com os laços que nos prendiam às nossas origens e ao passado, nossa vida concreta também é silenciada na descrição de nossa identidade. E nos transformamos em sujeitos abstratos, resumidos por nossa função na produção e na circulação de mercadorias e serviços.

Conseqüência: o desemprego nos ameaça com uma perda radical de identidade. E não adianta observar que, afinal, nos sobra o resto, ou seja, toda a complexidade de nosso ser. Tipo: "Perdi meu emprego, mas ainda sou pai amoroso, amante, esposo, amigo, leitor de Saramago e corintiano ou palmeirense". Não adianta porque, em regra, já renunciamos há tempos a sermos representados por nossa vida concreta.

Não é por acaso que as mulheres lidam com o desemprego melhor que os homens, como mostra uma pesquisa recente de Lucia Artazcoz e outros, Unemployment and Mental Health: Understanding the Interactions Between Gender, Family Roles and Social Class [Desemprego e Saúde Mental: Para Compreender as Interações Entre Gênero, Papéis Familiares e Classe Social], American Journal of Public Health, 2004, 94. Duas constatações de Artazcoz: 1) o impacto do desemprego é maior nos homens casados do que nos celibatários ("se não traz o feijão, você ainda é o pai?") 2) as mulheres casadas com filhos, ao perderem o emprego, sofrem menos que os homens e menos que as celibatárias. Explicação: para as mulheres, o exercício da maternidade ainda constitui uma identidade possível. "O que você faz na vida?". "Tomo conta de meus filhos." Para os homens, essa resposta não basta.

Enfim, espera-se que a economia crie empregos. Mas os poetas e os saltimbancos também têm uma tarefa crucial: são eles que podem, aos poucos, convencer a gente de que é nossa vida concreta que nos define, não nossa função produtiva.

P.S.: Um sonho recorrente propõe que reaprendamos a colocar raízes, ou seja, a definir nossa identidade por uma parcela de terra que nos sustentaria, que seria nossa e à qual pertenceríamos. Em 1932, Henry Ford, consternado pela crise que assolava os EUA, aderiu ao movimento da volta à terra. Declamou: "A terra! É lá que estão nossas raízes. Nenhum seguro-desemprego pode se comparar à aliança entre um homem e seu pedaço de terra". Curioso precursor de João Pedro Stedile, ele imaginava (e nisso tinha razão) que, se cada um mantivesse uma relação íntima com seu lote de terra, o desemprego poderia ser um aperto econômico, mas não uma queda no vazio. Pena, já era tarde demais para isso."


13 comentários:

Paulo Fernando disse...

Eu sei bem como é isto. Estou desempregado há algum tempo e, a cada dia que se passa, perco um pouquinho da esperança que me resta de arranjar um emprego decente, que me valorize. Tenho 22 anos e estou pensando assim. Imagine os quarentões que perderam emprego por conta desta crise e agora têm que racionar o arroz e o feijão para conseguir dar de comer dentro de casa... terrível.

Bom, a saída, realmente, é investir na criatividade e no empreendedorismo, não podendo, claro, de deixar de contar com a sorte.

Bom post. É um retrato contemporâneo da nossa sociedade pós-moderna - ou seria um retrato pós-moderno da nossa sociedade contemporânea? rsrsrs

Bjos, minha querida!

Lu Olhosde Mar disse...

bom dia querida! realmente, já passei por esta situação de desemprego.. e é brabo! um beijo

Ciça Donner disse...

mana é por isso que levanto as maos para o céu e agradeco essa mardita crise ainda nao ter chegado por aqui, pq quando chegar... aquele meu blog ficará uma saaaaco! nao tenho mais onde fincar raizes

Lu Souza disse...

Beth, to passada! Sabia o efeito que o desemprego causa nas pessoas, eu mesma passei por isso quando me mudei de cidade (por 02 meses), mas nunca tinha refletido sobre o além disso. do aspecto psicologico causado na pessoa.
Concordo que a mulher sofre menos, vi meu mariso (na epoca noivi) desempregado e achei que ele fosse ter um "treco". Foi barra.

E com vc, tudo bem?
Bjao.

Lucia Cintra disse...

Pois eh, conheco varias pessoas que ja perderam o emprego. E fico mt triste, pois uma coisa afeta a outra como um domino derrubando o proxima peca.

Acredito que vai demorar ate tudo se ajustar de verdade. E apesar de ser grata de nao ter perdido meu emprego, me sinto presa la, pois estou querendo trocar de carreira, mas essa eh a pior hora possivel.

Nao ha o que fazer, so acho que nao devemos perder a esperanca e continuar batalhando pra chegar onde queremos. Quem sabe talvez pra alguns, perder o emprego os motivara pra ir atras de seus sonhos, montar seu proprio negocio, comecar outra carreira...
Sei la, acredito que as coisas acontecem por um motivo e mts vezes te faz finalmente agir!

Bjos

Georgia disse...

Beth, a coisa está apertada por aqui tb. É a crise.

beijos

Kenia Mello disse...

Lá na Holanda, onde temos parentes, as notícias que chegam é de recessão mesmo, redução da jornada de trabalho, o governo pagando pra neguinho (ou será loirinho) ficar em casa que dá menos prejuízo. Isso numa economia estável, onde você paga a mesma coisa por sua casa durante trinta anos etc. e tal. Já aqui... Ai, ai...

Beijos.

P.S. O pau tá quebrando lá no blog, Beth. Hehehehe

todoyda disse...

Beth, imagine então como está o povo aqui, eles não tem jogo de cintura, não sabem como enfrentar a crise. Existem lugares que parecem cidades fantasmas, já que seus moradores tiveram que devolver seus imóveis por não conseguirem pagá-los, mas eu me pergunto, como eu posso comprar algo que está acima de minhas posses. Todo este povo sabia que era um investimento caro. Esta dúvida me persegue.
Do resto é ter fé, é uma léi da física, tudo que sobe tem que descer.
bjks
Cristiane

Heloisa disse...

É crise economica, é efeito estufa, é violência,...haja estrutura emocional pra "aguentar tantas mazelas", pois psicológicamente não é nada fácil passar por tudo isso sem se preocupar ou deprimir.
É o reflexo de uma nova sociedade e, sabe-se Deus o que nos aguarda.............???

Anônimo disse...

Oi! Vim aqui agradecer a visita e o comentário. Volte sempre!!!

um super beijo,
Simone Teixeira

aminhapele disse...

Também não é preciso fazer drama!
A "crise" provoca alguns incómodos,por exemplo:três desempregados da mesma empresa,da mesma família que,de um dia para o outro,ficam sem receber!
Um bocadinho de fome,o abandono da casa porque não se pagou a prestação ao Banco,nada que a caridade não resolva!
Por isso,cada vez em maior número,as famílias vivem na rua e,de vez em quando,comem!
A CRISE É MESMO SÉRIA!

Luciana Håland disse...

Oi Beth, ótimo post.
Essa semana vi muitas reportagens sobre a crise e o desemprego no Brasil, brasileiros indo embora do exterior porque não estão perdendo o emprego ou o que ganham não compensa a vida longe da família, salário só pra sobreviver, assim não vale a pena. Muito triste tudo isso, mas o povo brasileiro já passou por outras crises e o importante é não perder as esperancas e investir sempre em aprendizado.
Mas infelizmente no Brasil tem muitas outras coisas que nos desestimula e tira a esperanca, mas...
Por aqui a crise também já deu o ar da graca, ou seria desgraca?
Pessoas perdendo emprego, perdendo a casa porque não tem como pagar, mas espero que tudo melhore rápido.
beijos

Flávia e Kbça disse...

então. acho que por aqui, o ditado, mais vale um na mão do que dois voandos, está no seu ápce de entendiemnto. e é estranho andar aqui pelo corredores e ver, pessoas reclamando de seus salários... devem ver a crise com os mesmos olhos do governo.

abraço