.....................................................................................................................................................................Porque não só vives no mundo, mas o mundo vive em ti. .....................................................................................................

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

A Distância entre Nós-parte II




Gracinha, eu já comentei com vocês aqui algumas vezes, faz faxina para mim todas as semanas.

É uma paraibana, baixinha,
trabalhadora, mãe sofredora, passa roupa também e muito bem, limpa direitinho e quase nunca quebra alguma coisa. Diligente, chega cedo e gosta de sair cedo. Não me importo nem um pouco com isso, acho que o essencial é deixar o serviço pronto e ao meu gosto.


Digo que é mãe sofredora, pois o filho, jovem e já com uma filhinha de meses e uma mulherzinha não muito preparada para formar uma família, vive lá na casa da pobre da Gracinha, encostada e gosta mesmo de umas saidinhas, enquanto o rapaz, filho da Gracinha, está puxando pena numa prisão por tráfico de drogas.
A cara da periferia do Rio e isto agora, bem perto de mim que andei longe, bem longe desses assuntos por anos, longe dessa cidade cantada por Fernandinha Abreu e que é mesmo uma "cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos"!

Mas, como não sou a única a lidar próxima e longe ao mesmo tempo desses problemas, pois não há como se evitar mais isso hoje em dia aqui no Rio de Janeiro, onde a periferia, as favelas, as comunidades pobres, escoam seus tentáculos pelo asfalto e chegam aos condomínios fechados, casas ou comércio. A grande maioria de moradores das favelas, trabalha para o comércio ou para a classe média e aqueles que não se envolvem com a delinquência, vão para as ruas trabalhar de camelôs ou flanelinhas. O que sobra, sem emprego ou sem chance nenhuma, já que o governo atual é contra criança trabalhando ou jovem, antes dos 18 anos, ficam por aí pelos becos, pelas ruas, servindo de aviãozinho para a bandidagem. Antigamente as crianças ajudavam seus pais no comércio ou mesmo em casa, sem problema nenhum, pois é melhor do que ficar sem nada para fazer e encontrar o perigo na esquina dos seus bairros.




Voltando à Gracinha, digo mesmo que é uma ótima pessoa, trabalha com cuidado e não fica "amarrando" o serviço. Adora um café, porque é fumante (só que na varanda dos fundos), então deixo uma garrafa térmica cheia dele e ela passa o dia bebericando o mesmo. Come, ou melhor, engole a comida e uma vez, percebi que come de colher. Deixo-a à vontade na cozinha na hora do almoço, pois julgo que fica meio tímida ao comer perto de alguém, isto porque come estranhamente rápido demais e muita quantidade, mas também não ligo, porque aqui em casa não temos o hábito de minimizar comida para quem gosta ou tem fome.
E não acho justo que ela pague pelo erro do filho, afinal não é porque o rapaz co
meteu este triste delito que ela, coitada, ficará sem o emprego dela aqui em casa. Quando houve o fato, ela chegou choramingando e acabou contando-me, abrindo seu coração de mãe, dividido entre saber que o filho foi para uma prisão e ao mesmo tempo achar certo que ele pague o erro cometido.
Sempre q
ue tenho oportunidade, converso e dou conselhos, pego algum gancho de notícia na tv e troco com ela impressões e idéias, ajudando-a a formar uma opinião sobre os fatos e ocorrências do dia a dia.


Reparo que são pessoas que lá no fundo ainda tem muito de criança, tanta coisa que não sabem e outras sabem muito, como por exemplo, o sofrimento e a discriminação.

Se eu a mandasse embora por conta do que me contou, faria mais uma pessoa desempregada, com raiva de gente e, quem sabe até trocaria de lado na vida também!



Ela, depois que me contou sua tragédia pessoal, percebeu que tinha se aberto muito e, cautelosa, assim como eu, evitamos tocar neste assunto. Mas, é uma excelente diarista e muito honesta.
O seu maior defeito é comer demais mesmo, mas só não deixo ela se esbaldar nos meus pãezinhos de nozes que adoro e compro só prá mim. Então, quando ela vem, escondo-os num lugar onde ela nunca poderá imaginar que está. kkkk

De tanto eu falar para ela que a vida nas grandes capitais torna-se desumana para pessoas como ela e sua família, já que teem que "rebolar" muito para sobreviver a tantos gastos e apelos de compras e necessidades, alimentação e meios de transporte que, por incrível que pareça, para este povo é super caro e desconfortável.
Então, sua nova idéia é voltar para a Paraíba, que, segundo ela me disse, seu pai mora sozinho numa casinha de dois andares na cidadezinha do interior. Garanto que ele mora com muito mais dignidade do que ela, nestas comunidades imundas, violentas e abandonadas. Até para uma pessoa fazer o bem, ajudar esses moradores carentes de favelas, torna-se perigoso, pois como podemos entrar em certos lugares para levar ajuda ou carinho!? Aí reside um enorme problema no estado e entra e sai governo, ninguém percebe o quão valiosas eram as Assistentes Sociais de antigamente que faziam este trabalho com as pessoas desses locais.


Enfim, aí ela veio na semana passada com um pedido para que eu enviasse, em seu nome, uma participação, via internet, para um quadro no programa do Silvio Santos, o cara do baú.
O quadro chama-se "Preciso de Ajuda" e a pessoa tem que deixar todos os dados que eles pedem para que, talvez, num sorteio ou sei lá como eles fazem, chamem a pessoa para participar e ganhar o prêmio que pede, no caso ela pediu $ 1oooo reais. Seria, então, uma boa saída para ir embora daqui para sua terrinha.

Cl
aro que eu me prontifiquei a ajudá-la! Abri o site, entrei no link do programa e fui pedindo os dados a ela. Não sabia nada, nem o número da carteira de identidade!
Aí eu copiei para ela tudo direitinho e falei que me trouxesse hoje para que eu preenchesse os dados corretamente.
Parecia tudo bem, até que esbarramos no problema do CPF, pois ela não tem este documento.
Então, dei as dicas de como ela tem que fazer para tirar o seu CPF e que é um documento importante para que ela possa fazer muitas coisas na vida.

Coitada, não conseguiu inscrever-se no tal programa! Mas eu estou aqui, pronta p
ara ajudá-la se ela trouxer o bendito CPF.

A saga desta mulher é bem parecida com a de milhares que trabalham em sub-empregos como este pelo país àfora e, depois que li o romance indiano A Distância entre Nós de Thrity Umrigar, vi que existem mundos e vidas paralelos neste nosso universo, seja aqui, na Índia, na China, em Angola, na Arábia Saudita, etc... o mundo, neste sentido, caminha junto e cria pessoas com as mesmas desgraças diárias nas sociedades contemporâneas das grandes cidades.


Estamos todos ligados a estas pessoas e ao mesmo tempo separados, apenas por uma fronteira intransponível que se chama destino.



19 comentários:

aminhapele disse...

Gostei da história da Gracinha,Beth.
É uma Benvinda,a seu modo.
Como vê,por todo o Mundo,há situações semelhantes.
Resta-nos "olhá-las" com humanidade.
Por mais que façamos,não conseguiremos "compôr" o mundo.
Um abraço.

As aventuras de uma brasileira no Egito disse...

Beth,

Ja me encantei pela grca da Gracinha.....

Que Deus a ilumine e com certeza ELe te colocou no caminho dela para orienta-la.....isso ja eh uma enorme ajuda....

Aqui as coisas nao sao nada diferente.....as ajudantes do lar, se sao de cidades pequenas, nem documento porvando que eh uma cidada possuem.....um caos....

Eh Deus quem olha por essas pessoas.....

Sobre a voz la no post, nao eh minha nao....achei o video no youtube.....estou curiosa pra saber o que vc tem pra me contar.....kkkkkk

Beijos e fiquem com Deus

Barbrinha

Ana disse...

Oi, Beth!
Aqui vivemos problemas semelhantes, sim.
Infelizmente essas mulheres que nos ajudam a cuidar da nossa casa e, muitas vezes, dos nossos filhos, passam por muitos problemas, como os da Gracinha.
Filhos desajustados, usuários de drogas, com problemas vários...
Mas, verdade seja dita: isso não acontece só com diaristas. Bancárias, médicas, comerciárias, advogadas também enfrentam estas dificuldades, muitas vezes.
O fato das "Gracinhas" trabalharem dentro das nossas casas é que torna estas relações tão delicadas...
Parabéns pelo apoio que vc tem dado a ela. Seria injusto ela ser penalizada pelas faltas do filho...
Vivemos tempos difíceis, não é?

RoCosta disse...

Beth é mesmo muito estranho essa sensação de mundo paralelos. E mais estranho é o tal do destino...
Forte abraço, Lilás.

P.s.: Cuida do soninho pois ele é fundamental ;-))

Beth/Lilás disse...

Ana,
Bem lembrado, o drama das drogas está em todas as classes sociais hoje em dia!
É que eu, no meu mundo de Alice, só sabia dessas coisas, mas nunca convivi taõ perto.
Triste, muito triste!
bjs
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Lu Olhosde Mar disse...

pois é...e tem gente que convive com uma pessoa em casa, trabalhando, cozinhando e limpando sem saber nada sobre ela. vc se importou, e isso, querida, a Gracinha nao eskecerá nunca! bjos no seu coração imenso!

Lara disse...

Não sei se você já leu um livro chamado A Cidade do Sol, conta a vida de duas mulheres diferentes que o destino trata de uní-las. Não só a Gracinha, e não só nas favelas desse nosso Brasil que as mulheres tem que se virar pra cuidar da família.
beijos

Flávia Fayet disse...

Ainda bem q ela tem vc q lhe da conselhos, ajuda e uma térmica de café! Bjssss

ML disse...

Oi, Beth, vim conferir.
(Desculpe a demora, querida, mas só vi sua mensagem agora: passei o dia inteiro na maior correria)

Nossa, é incrível o que a falta de educação (não estou falando de maneiras, modos e frescura, falo sobre abrir a cabeça e pensar "além") no Brasil faz com que o destino dessa maioria seja assim, tão ao léu.
Ela é boa, o filho talvez mas anda "torrrto", a mulher do filho já tem filho mas vive na "balada".
Parece um "caso de família" (eu adoro esse programa, podem falar mal, tudo bem: eu adoro!).
No caso da Gracinha, o que choca é que ela é apenas mais um entre milhares (ou milhões).
A gente tem de ajudar no que pode mesmo - já mudar o destino deles é ... improvável.

bjnhs

Lucia Cintra Stevenson disse...

Fiquei com uma peninha dela, quem dera se pudesse ajudar! Se fosse milionaria que nem a Paris Hilton do mundo, usaria meu dinheiro pra uma boa causa.

Meus pais tiveram varios caseiros de cidades pequenas assim. Pessoas indicadas por amigos da minha avo (que morava numa cidade pequena de Minas) e que tinha sonho de viver numa cidade grande. Uns davam certo, outros acabavam voltando. E' uma vida dificil, ainda mais ela tendo que pagar de certa maneira, pelo erro do filho.

Voce tem um bom coracao. Tenho pena daqueles que se abrem e sao despedidos, mesmo as circunstancias nao sendo sua culpa. Tomara que ela consiga esse CPF logo. Sabia que eu tb nao tenho? Me mudei do Brasil muito novinha e nunca fiz um pra mim. Meu pai me explicou uma vez o que ele era, mas nem me lembro mais.

bjos

Flávia Fayet disse...

Beth, tem um presentinho lá no meu blog p/ usted, no post " Presente da Ana Roccana"! Bjsss

Beth/Lilás disse...

Rui,
Quando li rteu post sobre a tal Benvinda, já tinha começado a esboçar este aqui, pois a Gracinha estava aqui limpando e acabou que fiquei mais inspirada ainda quando o li.
Realmente, fazemos o que podemos, não adianta querermos "compor" o mundo à nossa maneira.
abraço
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Barbrinha querida,
Aí no Egito as coisas também não não fáceis para os pobres e necessitados e vc sempre mostra tudo isso no su blog muito bem.
bjs
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Ro,

Eu acredito mesmo nesse tal mundo paralelo, pois vira e mexe, lendo as coisas pela blogosfera, descubro tanta coisa parecida com o que vivemos por aqui!
bjs

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Lu,

Eu tento fazer a minha parte pelo que minha consciência pede e ainda por cima quero garantir a minha vaguinha lá no céu, quem sabe! hehe
bjs

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Lara querida,

Já li sim! É um romance prá lá de triste, na sequência do Caçador de Pipas e aquelas pobres mulheres afegãs podem tranquilamente se passar por Gracinhas aqui do Brasil.
bjs

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Flávia,

Acho que é o mínimo que posso fazer por ela. E hoje ela saiu daqui dizendo que estava com a barriga inchada de tanto que almoçou meu estrogonoff.
hehe

bjs
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ML

Sabe, as vezes acho que existe uma escola que forma esses milhares de pessoas. Pensam e agem iguaizinhos.
Pena o governo querer manter o povo nesse obscurantismo da falta de educação, conhecimento!

bjs

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Lucinha,

Também fico, mas digo-lhe que se vc ou eu, ou qualquer outra pessoa lhe der nas mãos os 10000 reais, ela não voltará para a Paraíba.
Acaba ficando e achando um meio de torrar o dinheiro com os filhos.
Já vi gente ajudar assim e a pessoa passar a perna nela.

Faço o que posso, às vezes até adianto algum para ela, mas o mais importante é pagar o dia dela, porque sei também que tem muita gente que pede para a empregada ir trabalhar, esfola e no final diz que não tem dinheiro para pagar naquele dia. Isso eu acho um absurdo e nunca fiz com ninguém!

beijinhos

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Georgia disse...

Beth, quando vivia no Brasil tinha uma passadeira, D. Cristina. Enquanto eu dava aulas ela passava a minha roupa. Eu chegava em casa e estava tudo arrumadinho mesmo que ela nao precisava fazê-lo. Sempre deixava algo a mais para ela e mais a passagem, pois sempre pesou muito o valor.

Mas as estórias sao muitas assim. Ela tb tinha uma filha viciada e sofria com isso.

Estou daqui torcendo por ela e você minha querida amiga, seus atos sao louváveis e que bom se o mundo tivesse mais mulheres como vc. Tenho certeza que o mundo seria mais feliz.

Nao deixa essa coisa esfriar nao. Fica em cima dela para tirar o cpf.

Que Deus abencoe as duas e suas familias.

Beijo

Laura disse...

Espero que quando ela conseguir se cadastrar, seja escolhida!!
Boa sorte pra ela!!

aminhapele disse...

É assim,minha amiga.
Só precisamos de ter o coração limpo.
Um abraço.

Fernanda - www.fernandafranca.com disse...

Eu acho muito bacana vc observar em quem está ao seu lado, prova que é uma pessoa de bem. A minha diarista eu chamo de tia, eu trato como se fosse de casa, é uma pessoa maravilhosa mesmo, sem ela eu não daria conta. Mas moramos no interior e a realidade é outra (felizmente para quem mora aqui, mesmo que eles desconheçam que a vida aqui é melhor que na capital). Espero que vc consiga inscrever a Gracinha. De coração. Beijos, Fê.

Rose disse...

Beth:
Há sempre muito a aprendermos uns com os outros quando nos dispomos a dialogar com ternura e compaixão...
A Gracinha certamente encontrou em você a confiança de que precisava para partilhar seus mais dolorosos problemas pessoais, e você estava ali, simplesmente... sem cobranças ou julgamento.
Isso faz bem e enriquece a vida. Aliás, é disso que ela se compõe: fluidez...sensibilidade e delicadeza...
Uma bela postagem a de hoje! Cheia de graça, de bênçãos, de leveza!...
Muita luz!
Carinho,
Rose.

Renata disse...

Depois de ler esse post fiquei ainda mais apaixonada por vc... :)
Que pessoa maravilhosa que voce eh! Com certeza, voce foi escolhida a dedo para estar na vida da Gracinha nessa hora de aperto que ela estah vivendo.

Infelizmente, eh como vc disse... Isso acontece no mundo inteiro, a unica diferenca eh o idioma... nada mais...

beijinhos.

Sonia H. disse...

A história da Gracinha com certeza se completa em tantas outras gracinhas que são trabalhadoras mas vivem com problemas dos filhos envolvidos com drogas, criminalidade, parentes que não têm a mesma garra e esperam apenas a comidinha no prato quentinha, roupinha lavada e abrigo.
A história da moça que me ajuda é muito semelhante. Mas eu a admiro muito pela luta que leva e ao mesmo tempo pela força interior que transborda em seu ser.
Beijos,